Domenico Starnone · Itália · @todavialivros
Mais um Starnone para a conta. Esse começa com um título esdrúxulo, que deve ter sido escolhido por motivos comerciais, pra seguir a linha de outros livros do autor que venderam bem por aqui (Laços, Segredos, Assombrações). A tradução literal para este aqui é Vida mortal e imortal da menina de Milão. Só descobri isso nas últimas páginas e me irritou, porque acho que o título tem um significado importante no que o autor quer dizer com a obra (e o que não quer). Na minha leitura, esse livro é uma declaração de amor a uma avó - provavelmente, à avó do próprio Domenico Starnone. Seguimos a vida de Mimi (seria um apelido possível para o nome Domenico?), desde sua infância (autor e personagem nasceram no mesmo 1943) e uma paixão platônica pela tal milanesa do título, até seu amadurecimento e sua entrada na Faculdade de Letras. Há um aspecto importante envolvendo o idioma. O italiano culto versus o dialeto, sotaques e pronúncias, linguagem culta versus coloquial, todo esse caldo que gera julgamentos e posicionamentos. Nossa compreensão não é precisa (e o tradutor deve ter sofrido um pouco), pela intensa relação entre os dialetos locais e o italiano, algo que por aqui seria só uma discussão de sotaque. Mimi ainda por cima estuda Letras Clássicas, então há uma investigação científica sobre a língua. Mas o ponto que mais me tocou é esse acerto de contas com uma avó que ama um neto, e estranheza dessa relação, principalmente na maturidade do neto, quando as diferenças intelectuais pesam.
“...é suficiente - disse a mim mesmo - pôr os espaços em branco entre as palavras, revisar aqui e ali, numerar os capítulos e está pronta”
p. 139 · uma de 22 frases marcadas neste livro
A única com quem eu me mostrava nervoso ou angustiado e que, malgrado minha ingratidão, continuou me apoiando todos os dias enquanto viveu, com seu puro e simples estar nos espaços designados - a cozinha, a pia, o fogão, a mesa, a janela -, sem nunca exprimir a mínima dúvida sobre meu futuro clamoroso, foi naturalmente minha avóp. 69
Ia ao túmulo do marido e ao túmulo da neta, as desgraças que podem ocorrer numa família são inimagináveisp. 124
Tinha forçado sua natureza por amor a mimp. 25
Que momentos horríveis, eu não confiava em mim, bastava um erro e eu estragava tudo que havia no mundop. 30
Cada vez mais eu me incomodava de ser um menino, mas ainda não conseguia deixar de serp. 34
Bebeu por um tempo que me pareceu sinal de uma grande sede, mas por mim ela poderia beber toda a água do bebedouro, imóvel, para sempre, só pela beleza de olhá-lap. 37
Então a levou embora, me deixando feliz e desesperadop. 38
Nós, homens, tínhamos de um modo ou de outro que viver sempre em alarme, sempre à espera de agredir ou ser agredido, sofrer ofensas para depois nos vingarmos, ou praticá-las nós mesmos e em seguida liquidar os prováveis vingadores, ah, magnífico, esse era nosso destino, e nem a morte nos apaziguava, ao contráriop. 45
...mas pela primeira vez na vida tive a impressão de que as palavras pudessem , em certas circunstâncias, se tornar um brinquedo dotado de um mecanismo interno que, de repente, já não funcionava bemp. 46
Ah, sim, qual o sentido de tomar banho, de se pentear, se arrumar todo, se um belo dia você sai de casa para trabalhar de pedreiro e se arrebenta inteiro, se num versão você sai de férias e se afoga?p. 60
Aprendi faz tempo que até as pessoas que nos amam se esforçam para se retirar de cena e deixar espaço às nossas manias de centralidadep. 83
O velho agora era eup. 106
O napolitano aprendido e falado desde a infância continuava insidiando o italiano que, ao contrário, eu aprendera sobretudo lendo, e me desfazer da minha língua primária, me apropriar de uma língua como aquela dos livros, ainda era uma pequena guerra, como se me tivesse sido ordenado - não sabia bem quando - marchar à conquista de uma elevação e ali me sentir a salvop. 110
Houve um momento - tive a impressão - em que não era mais apenas ela quem falava, também falavam sua mãe, sua avó, a bisavó, e diziam palavras que soavam pré-babélicas, palavras da terra, das plantas, dos humores, do sangue, dos trabalhos, o vocabulário das labutas que enfrentaram, o vocabulário das doenças graves das crianças e dos adultosp. 114
Estudava a importância da cavidade bucal não para os apaixonados, mas para a glotologiap. 116
A velhice chegou nesta manhãp. 120
As crianças não devem saber nada sobre a mortep. 124
...a morte vai ser a derrocada daquele pouco de inglês, francês e italiano que sei, vou esquecer a ortografia, me desintegrarei no dialeto de minha avó, me abaterei dissolvendo-me como figura sobretudo da retórica?p. 128
...de um italiano refinado a um dialeto ainda mais carregado que o de minha avó, como sempre acontece aos bem-nascidos desta terrível e maravilhosa cidadep. 137
...a literatura não é questão de boa vontade, redimensione-se. Eu era aquilo que era, um dos tantíssimos agregados caducos de matéria vivente, era preciso parar com os delírios de infânciap. 138
Mas eu não seria sincero se não acrescentasse que quem me deu uma mão durante aquela última febre de crescimento foi mais uma vez minha avó, e ela o fez adoecendo e morrendop. 138
...é suficiente - disse a mim mesmo - pôr os espaços em branco entre as palavras, revisar aqui e ali, numerar os capítulos e está prontap. 139