João Guimarães Rosa · Brasil · @novafronteira
É sempre um encanto e um espanto ler Guimarães Rosa. Esse eu fui indo devagarinhozinho, para não acabar logo. O livro foi publicado três anos após a morte do autor. Guimarães Rosa escolheu o título entre algumas opções (eu teria gostado de Meias-estórias) e 37 textos; outros 13 foram incluídos pelos organizadores. São textos muito diferentes entre si: contos, anotações de viagens e bichos, frases soltas, poemas, crônicas. Alguns têm um cenário urbano, bem diferente de outras obras. Mas tudo escrito naquele estilo inconfundível, que inclui pérolas como elefantástico, caminhinho, pertubatriz, distanciânsia, equibêbada, entrequequanto, velhos e velhas que velhavam e se recifez em Pernambuco. Os meus preferidos: Uns inhos engenheiros; O homem de Santa Helena; Fita verde no cabelo; Sem tangência; Pé-duro, chapéu-de-coro; Em-cidade; Quemadmodum; Reboldra; Além da amendoeira; A senhora dos segredos; Homem, intentada viagem; Fantasmas dos vivos; Minas Gerais; Recado do Sirimim; Mais meu Sirimim; As garças.
“Só que o a seguir-se é que de novo se esquece, empinado se ergue, preparadinho para cantar; que todo tentar de melodia já é um ensaio do indefinido”
p. 84 · uma de 46 frases marcadas neste livro
Tudo é recado. Coisas comuns comunicam, ao entendedor, revelam, dão aviso. Raras, as outras, diz-se respondem apenas a alguma fórmula em nossa mente - penso, tranquiliza às vezes achar com rapidez. Mais há, vaga, na gente, a vontade de não saber, de furtarm-nos ao malesquecido; o inferno é uma escondida recordaçãop. 223
Só as pessoas não morrem: tornam a ficar encantadasp. 340
A beleza da manhã é esta; você não vê o sol, mas a claridadep. 362
Se verdadeira, bela a história, se imaginada, ainda maisp. 50
Deixava-se o Paraguai - país tão simpático, que até parece uma pessoap. 54
Toda razão é medíocre. Viver é respirar; pensar já é morrerp. 57
O amor não precisa de memória, não arredonda, não floreia: faz forte estilop. 60
Não é só o sal que diferencia rio e mar: mas o irremediávelp. 65
...e a vida são sempre outros rumos / que não os nossosp. 70
A saudade é o coração dando sombrap. 72
Saudade - um fogo enorme, num monte de gelop. 72
O mundo é cheio do que se precisa, em migalhificências: felpas, filamentos, flóculosp. 83
Só que o a seguir-se é que de novo se esquece, empinado se ergue, preparadinho para cantar; que todo tentar de melodia já é um ensaio do indefinidop. 84
Ser poeta é já estar em experimentada sorte de velhicep. 86
amar é transgredir-sep. 88
Era uma das vezes em que, enorme, o que devia não ser possível sucede, o desproporcionadop. 94
Mas mesmo, mesmo brasileiro, com a nossa fala desembrulhada, nosso meio-campo cordial, nosso jeito raso, sem contragarra estranhap. 102
Eu estou só. O gato está só. As árvores estão sós. Mas não o só da solidão: o só da solistênciap. 118
Amar é a gente querer se abraçar com um pássaro que voap. 121
Se tantas vezes me viste, saberás se hoje estou triste, se vou ou volto de viagem?p. 122
Não falará a nossa língua, o que não quer absolutamente dizer que seja mudo. Não pertence ao nosso mundo, o que não quer dizer que deva ser votado ao infernop. 145
Primeiro casa, depois amor vem. Amor, devagarzinho, todo dia amor mais um pouco...Bom...p. 152
Quem morre, morreu mesmo? A morte é maior que a lógicap. 171
A gente vê só o cinzento, mas têm-se de adivinhar o branco e o pretop. 171
Depois da vida, o que há, é mais vida...p. 173
A gente sempre sabe que podia ter sabidop. 173
E tinha encerro e rumo o que Euclides comunicava em seus superlativos sinceros, na qualidade que melhor lhe cabia dar, nesta nossa descentrada largueza, de extremas misturas humanas, numa incomedida terra de sol e cipósp. 177
Súa seu são pão de vida; e é feliz quando consegue morrer simplesmente, morrer mais velho, em sua casinha à beira da ipueira, com prazo para gemer entre seus parentes, cantante o campo, pedindo ainda um pouco de paz, um pouco de chuvap. 194
Não sabemos, num nosso país que ainda constrói sua gente de tantos diversos sangues, se ele será, o sertanejo, a 'rocha viva de uma raça', o 'cerne de uma nacionalidade'p. 200
Se a chuva deixou poços, sobre lama para construções menos efêmeras, e se espelham n'água castelotes ribeirinhosp. 203
Depois, raiou o queremismo. 'Querer' é um verbo belo e forte, e a de querer deveria ser até uma das liberdades democráticas. Queremos este, queremos aquele, deixe-se a política em paz, só estamos situando o caso numa épocap. 206
É profundo o futuro: é. O passado é urgente...p. 225
O horizonte é o fechado de uma pálpebra. Todos somos amnésicos! O passado é uma coleção de milagres. O nunca é o sempre, escondido às nossas costas?p. 225
E cores: bluo, belazul, amarelim, carne-carne, roxonho, sobre-rubro, rei-verde, penetrados violáceos, rosa-roxo, um riso de róseo, seco branco, o alvor cruel do polvilho, aceso laranjo, enverdes, ávidos perverdes, o amarelo mais agudo, felflavo, felflóreo, felflo, o esplâncnico azul das uvas, manchas quentes de vísceras. Cores que granam, que geram coisas - goma, germes, palavras, tacto, tlitlo de pálpebras, permovimentosp. 237
Mas no princípio era o querer de beleza. No princípio era sem corp. 239
O rino tem surpresas. Sunga o trombico, embrulha narinas, bole orelhas, dá à frente mais meio passo, aumenta boca: e pinga simples pio, débil, flébil, indefeso, piinho - de passarinho muito filhotep. 252
O Boi é um rosto a menos entre os humanosp. 260
...refiz-me fiel ao que, por onde ando, muito me aconselho: com um olho na via, o outro na poesiap. 286
Não sei se creio em quiro e cartomantes; em astrólogos, sim, quase acreditop. 289
Não seria louco, a não ser da básica e normal doideira humana, a metafisicamente ditap. 296
Julgar, seja a quem for, é sempre péssimo; pepérrimo, então, julgar um amigop. 306
Também os defeitos dos outros são horríveis espelhosp. 337
Saudade é ser, depois de terp. 338
De que jeito dizê-la? MINAS: patriazinha. Minas - a gente olha, se lembra, sente, pensa. Minas - a gente não sabep. 342
Sente que a vida é feita de encoberto e imprevisto, por isso aceita o paradoxo; é um idealista prático, otimista através do pessimismo; tem, em alta dose, o amor fatip. 347
Sem nome, você poderá sentir, sempre mais, quem ele é...p. 353