Livaral não existia no dicionário. Mas toda palavra um dia foi inventada, e esta, se a gente parar para pensar, faz todo o sentido.
Não lembro exatamente quando veio o estalo. Livaral é a junção de livro com varal. Livros no varal, ideias no ar foi um mote que surgiu depois.
Mas o que eu tinha em mente mesmo era o sufixo -al. Em português, ele faz duas coisas. Às vezes indica aquilo que é relativo a algo: cultural, musical, teatral. Outras vezes indica um lugar onde algo existe em abundância, espalhado a perder de vista: milharal, cafezal, bananal, matagal. Livaral queria ser as duas coisas, o que é relativo aos livros e um monte de livros espalhados.
O Livaral visto de cima: 341 livros, um campo inteiro. Cada um leva à sua resenha.
As duas ideias vêm do mesmo lugar: o sufixo latino -alis. Foi no português e no espanhol que ele ganhou esse gosto pela fartura e passou a nomear plantações e terrenos (o arrozal, o pedregal, o areal). O sertão de Guimarães Rosa, aliás, já se chama por um -al: os Gerais.
Rosa, mestre em criar palavras com as próprias ferramentas da língua, levou o sufixo além das plantas. Em Grande Sertão: Veredas, um bando de araras vira araral, o povo espalhado vira povoal, e muita conversa fiada vira lorotal. De certa forma, o Livaral nasceu dessa inspiração.
Por isso fui ao Grande Sertão colher um poema, emprestando o método de Caetano W. Galindo em As cidades: só as palavras terminadas em -al, em ordem alfabética. Como o Galindo, deixei uma mentira no meio.
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Passe o mouse (ou toque) em cada palavra para ver onde ela aparece no livro.
Então fica assim: Livaral é um varal de livros. Mas é também um monte de livros espalhados, tantos que ocupam um campo inteiro, numa plantação que não para de crescer. Uma palavra inventada que, pensando bem, sempre fez sentido.
Na língua de todo dia
Agora, sem disfarce.
Areal, Arrozal
Bananal, Buritizal
Cacaual, Cafezal, Cajueiral
Canavial, Capinzal
Coqueiral
Laranjal, Lamaçal
Livaral
Lodaçal
Mandiocal, Mangueiral
Matagal, Milharal
Olival
Pantanal, Pedregal, Pinhal
Roseiral
Seringal
Trigal
A etimologia do -al e as palavras com prefixo al- (alface, aldeia, algodão), que vêm do artigo árabe e não têm nada a ver com o sufixo, estão bem contadas em Latim em pó, também do Galindo. E o buriti aparece no caderno em No Urubuquaquá, no Pinhém.