Svetlana Aleksievitch · Belarus · @companhiadasletras
O livro reúne depoimentos de mulheres soviéticas que participaram da II Guerra Mundial. Mulheres que trabalharam como enfermeiras, telefonistas, cozinheiras, na retaguarda, mas também na linha de frente, cavando trincheiras, pilotando e atirando. Na parte final da guerra, com a morte de muitos combatentes, os jovens e mulheres passaram a ser admitidos. Achei esse livro totalmente por acaso, numa estante de um posto de gasolina (lá no Posto Ipiranga, vou dar os créditos!). Não conhecia a autora Svetlana Aleksiévitch, mas me chamaram atenção o selinho de Prêmio Nobel na capa e o fato de ela ter nascido na Ucrânia (depois descobri que ela é bielorrussa). Resolvi ler o livro por causa da guerra Rússia-Ucrânia. Em alguns momentos, a leitura foi muito pesada pela crueldade dos fatos. Mas o trabalho da autora foi excepcional: além de reunir os depoimentos por temas, ela também faz comentários muito profundos sobre a condição humana e a arte da narrativa. Logo no prefácio ela avisa: "Ao contar, as pessoas criam, “escrevem” sua vida. Acontece inclusive de “acrescentarem” e “reescreverem” passagens (...) Logo depois da guerra, a pessoa contaria uma guerra; passadas dezenas de anos, claro, algo muda, porque ela deposita nas lembranças toda a sua vida." Então, a experiência da leitura foi rica para mim não só pelo dia a dia da guerra, mas pelo impacto e o poder da narrativa/literatura.
“É como se diz: na guerra você é metade humano, metade animal… É assim. De outra forma não se sobrevive. Se você for só humano, não sai vivo.”
posição 1177 · uma de 17 frases marcadas neste livro
Os relatos femininos são outros e falam de outras coisas. A guerra “feminina” tem suas próprias cores, cheiros, sua iluminação e seu espaço sentimental" (83).
Não estou escrevendo sobre a guerra, mas sobre o ser humano na guerra. Não estou escrevendo a história de uma guerra, mas a história dos sentimentos.posição 162
Entendo que o choro e o grito não devem ser trabalhados, senão o mais importante não vai ser o choro nem o grito, mas a elaboração. Em lugar de vida, vai sobrar literatura.posição 219
que elas são, russas ou soviéticas? Não, elas foram soviéticas—e também russas, bielorrussas, ucranianas, tadjiques…posição 232
Tanto as palavras quanto o silêncio são texto para mim.posição 244
Tenho pena de quem vai ler esse livro, e também de quem não vai ler…posição 319
Ah, minha filha, tenho medo das palavras. As palavras são terríveis…posição 430
descobriria que na guerra, além da morte, há uma infinidade de outras coisas, há tudo aquilo que existe em nossa vida cotidiana. A guerra é vida também.posição 510
É como se diz: na guerra você é metade humano, metade animal… É assim. De outra forma não se sobrevive. Se você for só humano, não sai vivo.posição 1177
Na guerra eu pensava: nunca vou me esquecer de nada disso. Mas a gente esquece…posição 1396
Podemos pressupor que a enfermeira viu uma guerra, a padeira viu outra, a paraquedista uma terceira, a piloto viu uma quarta, a comandante de um pelotão de atiradores de fuzil uma quinta…posição 1564
Me tornei alguém melhor na guerra… Sem dúvida! Me tornei uma pessoa melhor lá porque havia muito sofrimento.posição 1933
Vou explicar: é terrível lembrar, mas é mais terrível ainda não lembrar”. (2181).
O grande se tornará pequeno. Mesmo que eu goste de olhar para o céu e para o mar, o que mais me fascina é ver o grão de areia pelo microscópio. O mundo em uma gota. Essa vida grande e improvável que estou descobrindo ali. Como chamar o pequeno de pequeno, e o grande de grande, quando um e outro são igualmente infinitos? Já faz tempo que não os diferencio. Para mim, uma pessoa já é tanto. Dentro dela há de tudo—é possível se perder ali." (2577).
A vergonha dava mais medo do que a morte." (3493).
Sabe como é bonita a manhã na guerra? Antes da batalha… Você olha e sabe: pode ser a sua última. A terra é tão bonita… E o ar… O sol…posição 3613
Sabe o que pensávamos na guerra? Sonhávamos: ‘Bom, rapazes, se sairmos vivos… Como serão felizes as pessoas depois da guerra! Como será feliz, como será bonita a vida. Essas pessoas que tanto sofreram vão ter pena umas das outras. Vão amar. Serão outras pessoas’. Não tínhamos dúvida. Nem um tiquinho. Meu bem… As pessoas se odeiam tanto quanto antes. Matam de novo. Isso para mim é o mais incompreensível… E quem são? Nós… Somos nós…posição 5484