Juan José Saer · Argentina · @companhiadasletras
Adorei. Tentei ler esse livro em dois momentos de 2021, mas não engrenei e abandonei. Voltei a ele agora, e ainda tive dificuldades nas primeiras páginas, mas depois não consegui largar. Uma sinopse básica: Bianco é um europeu paranormal, que ganha a vida fazendo shows lendo mente e entortando colher. Depois de cair em descrédito, vai parar na Argentina. Passa a ter dúvidas sobre seus talentos, e o livro trata dessa disputa espiritualidade x materialismo. Mais do que o enredo, o que me prendeu foi a narrativa. Saer domina a escrita, o ritmo, alternando descrições longuíssimas e frases curtas. Eu me peguei pensando no livro ao longo do dia, com vontade de querer retomar logo a leitura. Agora, reconheço que esse não é o tipo de livro fácil para recomendar. Talvez a história não seja tão atrativa, mas o que me encantou foi o ritmo da escrita e os pensamentos do protagonista, suas dúvidas sobre a esposa Gina e uma possível traição. Eu gostei muito e já fiz uma lista de outros livros do Saer.
“A única maneira de ficar verdadeiramente rico, sem problemas, neste país ou em qualquer outro, é ter os pobres do seu lado”
p. 66 · uma de 7 frases marcadas neste livro
Os de Belém sorriem uns para os outros: são camponeses, é claro, pastores, e os reis vêm do oriente, onde o pessoal é crédulo demais, um pouco atrasado; estão com o olhar equivocado e, embora ignorantes, parecem ter boa índole: abramos todos os estábulos de Belém para que se convençamp. 50
Multiplicar-se eles mesmos e o gado, ampliar suas terras: eis tudo o que lhes interessap. 56
A única maneira de ficar verdadeiramente rico, sem problemas, neste país ou em qualquer outro, é ter os pobres do seu ladop. 66
(…) mas não restava para Bianco a menor dúvida de que a realidade, como uma folha de papel pintado, estava apenas esperando que ela viesse dobrá-la em quatro e metê-la no bolso do coletep. 102
Bianco sentia que havia em Gina algo desconhecido, inabordável, um elemento inesperado que escapava ao seu domínio, uma porcentagem de força indefinível que precisaria levar em conta em todos os seus cálculos dali por diante, e que só podia manipular às cegas, sabendo que, liberada, essa força era capaz de provocar reações imprevisíveis e destrutivasp. 106
(…) mas frequentemente a dúvida mais do que o convencimento é que forja as reputaçõesp. 137
E tudo isso porque entrou no círculo mágico, no campo magnético, no espaço enfeitiçado em que impera a força, o magma, a promessa, a espiral sem nome e sem finalidade, nem amiga nem inimiga, que, com igual indiferença, nos traz à luz do dia ou nos tritura e nos mói até misturar-nos com a poeira gelada das estrelasp. 184