Jorge Luis Borges · Argentina · @companhiadasletras
Um superclássico que estava esperando sua hora na pilha faz tempo. É um livro de um apaixonado por literatura, um mestre da metalinguagem. São contos escritos por Borges ao longo de duas décadas, e que antes haviam sido publicados em outras obras. Ele brinca com a interpretação e o sentido das palavras. Há sentidos metafísico e filosófico, é preciso entrar na "viagem" do autor. Gostei especialmente dos textos que falam sobre outros livros: Tlön, Uqbar, Orbis Tertius; A Biblioteca de Babel; Pierre Menard, Autor do Quixote. Nesse último, ele discute o sentido do texto e propõe a seguinte questão: um texto idêntico escrito por diferentes autores tem o mesmo significado? Lá pelas tantas, ele diz que livro e labirinto podem ser um único objeto. É uma boa chave para essa leitura: percorrendo um labirinto, escolhendo caminhos, decifrando enigmas.
“Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No mundo entulhado de Funes não havia senão detalhes, quase imediatos”
p. 108 · uma de 28 frases marcadas neste livro
O texto de Cervantes e o de Menard são verbalmente idênticos, mas o segundo é quase infinitamente mais ricop. 42
A glória é uma incompreensão e, quem sabe, a pior delasp. 43
Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No mundo entulhado de Funes não havia senão detalhes, quase imediatosp. 108
Desvario trabalhoso e empobrecedor o de compor vastos livros; o de espraiar em quinhentas páginas uma ideia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutosp. 11
Apenas um traço memorável: a literatura de Uqbar era de caráter fantástico e que suas epopeias e lendas jamais se referiam à realidade, mas tão-só às regiões imaginárias de Mlejnas e Tlön...p. 15
Há poemas famosos compostos de uma única palavra enorme. Esta palavra integra um objeto poético criado pelo autorp. 21
Não existe o conceito de plágio: ficou estabelecido que todas as obras são obra de um só autor, que intemporal e anônimop. 26
Um livro que não inclua seu contralivro é considerado incompletop. 26
Meu propósito é meramente assombrosop. 38
Ser, de alguma forma, Cervantes e chegar ao Quixote pareceu-lhe menos árduo - por conseguinte, menos interessante - que continuar sendo Pierre Menard e chegar ao Quixote através das experiências de Pierre Menardp. 39
Não há exercício intelectual que não seja afinal inútilp. 43
Naturalmente, essas 'loterias' fracassaram. Sua virtude moral era nula. Não se dirigiram a todas as faculdades humanas, mas unicamente à esperança. Diante da indiferença pública, os mercadores que fundaram essas loterais venais começaram a perder dinheirop. 54
Na realidade o número de sorteios é infinito. Nenhuma decisão é final, todas se ramificam em outrasp. 59
...a Babilônia não é outra coisa senão um infinito jogo de acasosp. 61
'Não pertenço à parte, mas à mera história da arte'. Não havia, para ele, disciplina inferior à históriap. 62
Afirmava também que, das diversas felicidades que a literatura pode ministrar, a mais alta seria invençãop. 68
Falar é incorrer em tautologiasp. 77
Pensei que um homem pode ser inimigo de outros homens, de outros momentos de outros homens, mas não de um país: não de vagalumes, palavras, jardins, cursos de água, poentesp. 85
...ninguém pensou que livro e labirinto eram um único objetop. 88
A verdade é que vivemos adiando tudo o que é adiável; talvez todos nós saibamos no fundo que somos imortais e que, cedo ou tarde, todo homem fará todas as coisas e saberá tudop. 105
O que um homem faz é como se todos os homens o fizessemp. 113
Que história tivesse copiado a história já seria suficientemente espantoso; que a história copie a literatura é inconcebívelp. 118
Um desses livreiros que descobriram que todo homem se resigna a comprar qualquer livrop. 124
Não há homem que, fora de sua especialidade, não seja crédulop. 137
Antes do dia prefixado por Julius Rothe, morreu centenas de mortesp. 137
Logo refletiu que a realidade não costuma coincidir com as previsões; com lógica perversa inferiu que prever um detalhe circunstanciável é impedir que isso aconteçap. 138
Não dispunha de outro documento a não ser a memóriap. 143
Há uma hora da tarde em que a planície está a ponto de dizer alguma coisa; nunca o diz ou talvez o diga infinitamente e não entendemos, ou entendemos mas é intraduzível como uma músicap. 155