Albert Camus · França · @editorarecord
O romance é uma longa fala de um narrador a um interlocutor cuja voz não aparece. Nessa conversa, ele faz uma análise de sua vida e um exame de consciência. É a mesma técnica de GSV, curiosamente publicado no mesmo ano (1956). O narrador se revela um "juiz-penitente": sua estratégia consiste em confessar seus próprios pecados e poder continuar a julgar os outros. Camus faz várias reflexões sobre o comportamento humano. Retoma a questão do julgamento e aos juízes ("somos todos juízes"), e nesse ponto lembrei de novo de GSV: "Quem sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado". Ele explora a moralidade e suas nuances: o que é bom ou ruim, quem julga, e quem não tem defeitos?
“A verdade é que todo homem inteligente, como o senhor bem sabe, sonha em ser um gângster e em imperar sobre a sociedade unicamente pela violência”
p. 42 · uma de 25 frases marcadas neste livro
Além disso, eu era alimentado por dois sentimentos sinceros: a satisfação de me encontrar do lado certo do tribunal e um desprezo instintivo pelos juízes em geralp. 16
Todo homem tem necessidade de escravos, como de ar puro. Mandar é respirar, não tem a mesma opinião? E até os mais favorecidos conseguem respirar. O último da escala social tem ainda o cônjuge ou o filho. Se é solteiro, um cão. O essencial, em resumo, é uma pessoa poder zangar-se, sem que alguém tenha o direito de responderp. 35
É preciso que alguém tenha a última palavra. Senão, a toda razão pode opor-se uma outra: nunca mais se acabaria. A força, pelo contrário, resolve tudop. 35
Somos todos casos excepcionais. Todos queremos recorrer de qualquer coisa! Cada qual exige ser considerado inocente, a todo custo, mesmo que para isso seja preciso acusar o gênero humano e o céup. 62
Já que não podíamos condenar os outros sem imediatamente nos julgarmos, era preciso nos humilharmos para ter o direito de julgar os outros. Já que todo juiz acaba um dia por ser penitente, era preciso enveredar em sentido inverso e exercer o ofício de penitente, para poder acabar como juizp. 104
Quanto mais me acuso, mais tenho direito de julgar os outrosp. 105
Mas sabe por que somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, já não há obrigações. Deixam-nos livres, podemos dispor do nosso tempo, encaixar a homenagem entre o coquetel uma doce amante: em resumo, nas horas vagas. Se nos impusessem algo, seria a memória, e nós temos a memória curta. Não, é o morto recente que nós amamos nós amamos nos nossos amigos, o morto doloroso, a nossa emoção, enfim, nós mesmos!p. 26
É preciso que algo aconteça, eis a explicação da maior parte dos compromissos humanos. É preciso que algo aconteça, mesmo a servidão sem amor, mesmo a guerra ou a morte. Vivam, pois, os enterros!p. 29
Se os proxenetas e os ladrões fossem sempre condenados em toda parte, as pessoas de bem, meu caro senhor, julgar-se-iam todas e incessantemente inocentesp. 32
Devido a um conjunto de circunstâncias, é claro, mas as circunstâncias existem semprep. 41
A verdade é que todo homem inteligente, como o senhor bem sabe, sonha em ser um gângster e em imperar sobre a sociedade unicamente pela violênciap. 42
Eu descobria em mim agradáveis sonhos de opressãop. 42
Quando me sentia ameaçado, não me tronava apenas um juiz, mas mais ainda: um senhor irascível que queria, fora de qualquer lei, atacar o delinquente até fazê-lo ficar de joelhosp. 43
Depois da morte, todo homem é responsável por seu rostop. 43
Eu tinha princípios, é claro; por exemplo: a mulher dos amigos era sagrada. Simplesmente, eu deixava, tom toda sinceridade, alguns dias antes, de ter amizade pelos maridosp. 45
O problema é contornar, e sobretudo, oh, sim, sobretudo, o problema é evitar o julgamento. Não digo evitar o castigo. Porque o castigo sem julgamento é suportável. Ele tem, aliás, um nome que garante a nossa inocência: a infelicidade. Não, pelo contrário, trata-se de fugir ao julgamento, de evitar ser continuamente julgado, sem que jamais a sentença seja pronunciadap. 59
Não nos perdoam a nossa felicidade, nem o nosso sucesso, a menos que se consinta generosamente em reparti-los. Mas, para ser feliz, é preciso não se envolver demais com os outrosp. 61
Não desejamos, pois, nos corrigir, nem melhorar: seria preciso, antes de tudo, que fôssemos julgados fracosp. 63
A riqueza, caro amigo, não é ainda a absolvição, mas uma suspensão de pena, sempre fácil de conseguirp. 63
Então, a única utilidade de Deus seria garantir a inocência, mas eu vejo a religião antes de tudo como uma grande empresa de lavanderia, o que aliás ela foi, mas por breve tempo, precisamente durante três anos, e não se chamava religiãop. 85
Não espere pelo Juízo Final. Ele se realiza todos os diasp. 85
A partir daí, uma vez que somos todos juízes, somos todos culpados uns perante os outros, todos cristos à nossa maneira vil, crucificados um por um, e sempre sem saberp. 89
Enfim, como vê, o essencial é não mais ser livre e obedecer, no arrependimento, a quem for mais malandro do que nós. Quando formos todos culpados, será a democraciap. 102
O essencial é poder permitir-se tudo, mesmo se for preciso proclamar, de vez em quando, em altos brados, a própria indignidadep. 106
É tarde demais, agora, será sempre tarde demais. Felizmente!p. 110