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A queda

Nobel1957Prêmio Nobel de Literatura 1957

Albert Camus · França · @editorarecord

Período
28 dez – 31 dez
4 dias
Tempo de leitura
2h22
cerca de 36 min por dia
Páginas
110
físico
Ritmo
46 p/h
páginas por hora
Nota
★★★★★
4 de 5

O romance é uma longa fala de um narrador a um interlocutor cuja voz não aparece. Nessa conversa, ele faz uma análise de sua vida e um exame de consciência. É a mesma técnica de GSV, curiosamente publicado no mesmo ano (1956). O narrador se revela um "juiz-penitente": sua estratégia consiste em confessar seus próprios pecados e poder continuar a julgar os outros. Camus faz várias reflexões sobre o comportamento humano. Retoma a questão do julgamento e aos juízes ("somos todos juízes"), e nesse ponto lembrei de novo de GSV: "Quem sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado". Ele explora a moralidade e suas nuances: o que é bom ou ruim, quem julga, e quem não tem defeitos?

Frase marcada

“A verdade é que todo homem inteligente, como o senhor bem sabe, sonha em ser um gângster e em imperar sobre a sociedade unicamente pela violência”

p. 42 · uma de 25 frases marcadas neste livro
p. 1p. 110
Todas as frases marcadas
  1. Além disso, eu era alimentado por dois sentimentos sinceros: a satisfação de me encontrar do lado certo do tribunal e um desprezo instintivo pelos juízes em geralp. 16
  2. Todo homem tem necessidade de escravos, como de ar puro. Mandar é respirar, não tem a mesma opinião? E até os mais favorecidos conseguem respirar. O último da escala social tem ainda o cônjuge ou o filho. Se é solteiro, um cão. O essencial, em resumo, é uma pessoa poder zangar-se, sem que alguém tenha o direito de responderp. 35
  3. É preciso que alguém tenha a última palavra. Senão, a toda razão pode opor-se uma outra: nunca mais se acabaria. A força, pelo contrário, resolve tudop. 35
  4. Somos todos casos excepcionais. Todos queremos recorrer de qualquer coisa! Cada qual exige ser considerado inocente, a todo custo, mesmo que para isso seja preciso acusar o gênero humano e o céup. 62
  5. Já que não podíamos condenar os outros sem imediatamente nos julgarmos, era preciso nos humilharmos para ter o direito de julgar os outros. Já que todo juiz acaba um dia por ser penitente, era preciso enveredar em sentido inverso e exercer o ofício de penitente, para poder acabar como juizp. 104
  6. Quanto mais me acuso, mais tenho direito de julgar os outrosp. 105
  7. Mas sabe por que somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, já não há obrigações. Deixam-nos livres, podemos dispor do nosso tempo, encaixar a homenagem entre o coquetel uma doce amante: em resumo, nas horas vagas. Se nos impusessem algo, seria a memória, e nós temos a memória curta. Não, é o morto recente que nós amamos nós amamos nos nossos amigos, o morto doloroso, a nossa emoção, enfim, nós mesmos!p. 26
  8. É preciso que algo aconteça, eis a explicação da maior parte dos compromissos humanos. É preciso que algo aconteça, mesmo a servidão sem amor, mesmo a guerra ou a morte. Vivam, pois, os enterros!p. 29
  9. Se os proxenetas e os ladrões fossem sempre condenados em toda parte, as pessoas de bem, meu caro senhor, julgar-se-iam todas e incessantemente inocentesp. 32
  10. Devido a um conjunto de circunstâncias, é claro, mas as circunstâncias existem semprep. 41
  11. A verdade é que todo homem inteligente, como o senhor bem sabe, sonha em ser um gângster e em imperar sobre a sociedade unicamente pela violênciap. 42
  12. Eu descobria em mim agradáveis sonhos de opressãop. 42
  13. Quando me sentia ameaçado, não me tronava apenas um juiz, mas mais ainda: um senhor irascível que queria, fora de qualquer lei, atacar o delinquente até fazê-lo ficar de joelhosp. 43
  14. Depois da morte, todo homem é responsável por seu rostop. 43
  15. Eu tinha princípios, é claro; por exemplo: a mulher dos amigos era sagrada. Simplesmente, eu deixava, tom toda sinceridade, alguns dias antes, de ter amizade pelos maridosp. 45
  16. O problema é contornar, e sobretudo, oh, sim, sobretudo, o problema é evitar o julgamento. Não digo evitar o castigo. Porque o castigo sem julgamento é suportável. Ele tem, aliás, um nome que garante a nossa inocência: a infelicidade. Não, pelo contrário, trata-se de fugir ao julgamento, de evitar ser continuamente julgado, sem que jamais a sentença seja pronunciadap. 59
  17. Não nos perdoam a nossa felicidade, nem o nosso sucesso, a menos que se consinta generosamente em reparti-los. Mas, para ser feliz, é preciso não se envolver demais com os outrosp. 61
  18. Não desejamos, pois, nos corrigir, nem melhorar: seria preciso, antes de tudo, que fôssemos julgados fracosp. 63
  19. A riqueza, caro amigo, não é ainda a absolvição, mas uma suspensão de pena, sempre fácil de conseguirp. 63
  20. Então, a única utilidade de Deus seria garantir a inocência, mas eu vejo a religião antes de tudo como uma grande empresa de lavanderia, o que aliás ela foi, mas por breve tempo, precisamente durante três anos, e não se chamava religiãop. 85
  21. Não espere pelo Juízo Final. Ele se realiza todos os diasp. 85
  22. A partir daí, uma vez que somos todos juízes, somos todos culpados uns perante os outros, todos cristos à nossa maneira vil, crucificados um por um, e sempre sem saberp. 89
  23. Enfim, como vê, o essencial é não mais ser livre e obedecer, no arrependimento, a quem for mais malandro do que nós. Quando formos todos culpados, será a democraciap. 102
  24. O essencial é poder permitir-se tudo, mesmo se for preciso proclamar, de vez em quando, em altos brados, a própria indignidadep. 106
  25. É tarde demais, agora, será sempre tarde demais. Felizmente!p. 110
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