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Antologia pessoal

Dalton Trevisan · Brasil · @editorarecord

Período
6 mai 2023 – 18 fev 2024
289 dias
Tempo de leitura
6h59
cerca de 1 min por dia
Páginas
447
físico
Ritmo
64 p/h
páginas por hora
Nota
★★★★★
5 de 5

Tomei doses diárias de Dalton Trevisan por vários dias. Li essa antologia como um livro sagrado: todos os dias umas duas, três páginas antes de dormir. Curtindo cada frase e admirando o gênio escultor. Fui nesse ritmo porque não queria acabar. Mas o bom da literatura é isso: nunca acaba, podemos sempre mais, desde as releituras. A antologia pessoalmente escolhida por Dalton tem quase cem de seus setecentos contos. No prefácio, Francisco Alvim conta que ele corrigiu, escreveu, burilou vários dos contos: o Dalton leitor revisando o Dalton escritor. Muitos são bem curtinhos, direto ao ponto - mas dizem tanto. Cada frase contém significado e conta a história. Não tem desperdício de palavra. Ele diz sem precisar dizer. E fala muito profundamente do humano. Dalton não doura a pílula. Nossos desejos, nossos sentimentos reprimidos, nossos defeitos, bebida, sexo. Há também beleza. Está mais escondida, mas está nos pequenos prazeres da vida. É muito engraçado, começando pelos títulos: Todas as Marias são coitadas; João é uma lésbica; Chora, maldito; Mundo, não aborreça. E, claro, o universo de Curitiba, ainda que merdosa, dá um charme à leitura. Nos comentários estão algumas frases que selecionei durante a leitura. Apreciem.

Frase marcada

“Deita-se e cobre-se. Mal o filho fecha a porta, repuxa o lençol, esconde o rosto. E quietinho morre. Até o fim não fez feio”

p. 270 · uma de 36 frases marcadas neste livro
p. 1p. 447
Todas as frases marcadas
  1. Viver pra quê? Oitenta e cinco anos em janeiro. Tempo demais. Os dias repetidos - o que de bom aos oitenta e cinco anos você pode esperar? Resta alguma coisa para desejar aos oitenta e cinco anos?p. 384
  2. Tão diversas, são todas iguais nos olhos que enchem a cara miudinha - o olho aflito do adultop. 35
  3. Todo filho é uma prova contra o paip. 42
  4. O filho é sempre um ingrato, doutorp. 46
  5. Todo velho é sem vergonhap. 49
  6. ...porque às mães nunca foi dado entender os filhos, apenas amá-losp. 59
  7. No fundo de cada filho de família dorme um vampiro - não sinta gosto de sanguep. 74
  8. Relutante, volta-se para a fulana: em cada olho um grito castanho de ódiop. 95
  9. ...essa Curitiba merdosa não é a que viajo. Eu sou da outra, do relógio da Praça Osório que marca implacável seis horas em ponto; dos sinos da Igreja dos Polacos, lá vem o crepúsculo nas asas de um morcego; do bebedouro da pracinha da Ordem, onde os cavalos de sonho dos piás vão beber águap. 101
  10. Deus se compadeça de nós, maridos!p. 112
  11. No caldo de feijão, entre cabelos dourados de gordura, boiavam as misérias da vidap. 121
  12. ...uma delas era sozinha a guerra do Paraguai, em cada pai de família descobriam um filho pródigo, uma noite de amor com elas era morrer um ano mais cedo, que fim levou ele e as tais que fim levaram?p. 143
  13. E as Misses Curitiba que fim levaram, coxas fosforescentes no maiô colante, em que poço se afogaram? em que fogueira se incendiaram? em que formicida com gasosa de framboesa se envenenaram?p. 143
  14. Todas as noites do velho são dores, eis que vem o fimp. 148
  15. Voltava quando não havia outro - antes ele do que a solidãop. 150
  16. Sabe o que é, aos sessenta anos, não ter uma velha para infernar?p. 163
  17. Saiu ao pai: jogo, bebida e mulherp. 181
  18. Duas pessoas que nada mais têm a se dizer e toda noite se dão as costas no mesmo leitop. 193
  19. Filho é bicho ingrato. Cresceram todosp. 213
  20. Ergueu a cabeça da fronha com o nome bordado, tirou da mesinha o revólver. Até assustou o médico. Só disse: Aqui um santo remédio para o câncer. Nunca ele seria capaz. Era covarde. Como eu. E todos os heróis da família. Nosso avô passou a revolução dentro de uma barrica. Ali quietinho, sem respirar. Só saía para beber água. Depois da rendição até se ofereceu para lavrar a ata. E assinou entre os primeiros. Bem alegrinhop. 247
  21. - É uma chantagista. Quando viajei, ela me disse: Está beijando tua mãe pela última vez. Eu, mais que depressa: Nada disso, mãe. Meu avião é que vai cair. Beijou pela última vez o teu filhop. 256
  22. Deita-se e cobre-se. Mal o filho fecha a porta, repuxa o lençol, esconde o rosto. E quietinho morre. Até o fim não fez feiop. 270
  23. Ao bravo bamboleio da bundinha Até as pedras batem palmasp. 286
  24. Castigo bastante é viver em Curitiba Morrer em Curitiba que não dáp. 299
  25. o espetáculo do Passeio não são as araras bêbadas aos berros nem o velho cedro florido de garças-brancas a grande festa do Passeio são as mocinhas pra cá pra lá na ronda sempiterna do amorp. 312
  26. Mas livre. Não me diga: Você tem que...Daí eu não façop. 333
  27. Vinte e seis aninhos em floração vieram ao meu encontro. Me enlaçou o pescoço nos braços perfumosos de giesta, ergueu a cabeça. E oferceu os lábios molhados. Sôfrega e gemente, ela me beijou. Todo o corpo tremiap. 340
  28. Fatal: assim que você cresce, de que serve a mãe da gente? Só te envergonharp. 349
  29. Todo malandro tem seu minuto de bobeira. Eu, o rei do Bar do Tiozinho. Teje preso. Agora me ferrei bonitinhop. 380
  30. Puta, não senhor. Garota de programap. 393
  31. Que é isso, joelho? Não fraqueje, não trema, não se dobrep. 401
  32. Chorar muito a inocência perdida de todos nósp. 412
  33. Só nos responde no oco do céu o silêncio das estrelas mortasp. 420
  34. Casada de pouco. E já infelizp. 421
  35. No silêncio da penumbra se ouve cada vez mais alto o coração delator do tempo: um relógiop. 431
  36. Agora todos sabemos, Josué, da sua curta biografia. Precisou morrer para ser lembrado, ao menos por instante. Josué dos Santos, ciclista do sem-fim azul e, ao que parece, funileiro autônomo. Em cada esquina desta cidade a morte pede carona. Amanhã qual de nós, ao lhe estender a mão, estará fazendo a sua última cortesia?p. 435
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