
Cristovão Tezza · Brasil · @editorarecord
O filho do professor universitário Frederico Rennon decide contar a história do pai, que sumiu depois de um ciclo de palestras. Ele encontra cartas escritas pelo pai a uma atriz famosa, Sara Donovan, uma antiga paixão de juventude, acesa na maturidade. Decide então escrever um livro publicando as cartas do pai. A narrativa é em primeira pessoa: ora nas cartas do pai, ora nos relatos e interpretações do filho. Surgem episódios do passado, e o confronto entre pai e filho. Tudo isso se passa em Curitiba, com jantares em Santa Felicidade no Tortuga, palestras na Reitoria, peças no Guairão, caminhadas na Rua XV e filmes no Cine Luz. Não gosto de romance epistolar, mas gostei desse, principalmente pelas reflexões da relação pai/filho. No prefácio à segunda edição, Tezza conta que escreveu o livro em uma espécie de residência literária nos EUA, durante 40 dias. E registra o divertido conselho que recebeu de um escritor alemão com quem conviveu no período: "Todo livro deveria começar na página 30".
“...é preciso dar ao inferno dos fatos uma interpretação, que deverá ser a verdadeira interpretação, a interpretação indiscutível”
p. 37 · uma de 10 frases marcadas neste livro
As pessoas, todas elas, sentem um prazer não tão secreto em diminuir os outros. Sem isso, que tamanho teríamos?p. 14
Sara, cá entre nós: acredito tanto em psicanálise quanto em disco voadorp. 51
Somos todos funcionários públicos de nós mesmos: a vida é, ao fim e ao cabo, o trabalho de preencher corretamente longos formulários, todos os dias, de acordo com um regulamento tácito mas poderosop. 167
...é preciso dar ao inferno dos fatos uma interpretação, que deverá ser a verdadeira interpretação, a interpretação indiscutívelp. 37
O saudosismo é um sentimento ruim; é sempre um novo enterrop. 45
Como posso eu saber as leias que me desmoronam?p. 86
Vamos esquecendo, mas o esquecimento, ano após ano, vai inchando seu vazio incolor e indolor, ocupando os buracos na parede, esbarrando discretamente nas nossas pernas. Esquecer: uma bela e difícil tarefap. 92
Não há tarefa mais difícil para um homem do que ficar nup. 94
Nós vamos sempre para lugar nenhum, e é esta tela em branco que nós, só nós, podemos preencher diariamente com nossas pinceladas inseguras, com tantas mãos invisíveis empurrando nosso braço em todas as direções a cada segundop. 164
Bem, antes de mais nada, uma comissão de inquérito, com prazos dilatados. Não há pressa. Abaixo-assinado dos alunos? Muitos deles - esses barbudinhos irresponsáveis - se recusam a assinar, porque afinal de contas o professor (quem diria!) está certo! Ele fez sua própria revolução, está numa boa transando com uma deusa e não mofando nesse hospital reacionáriop. 182