César Aira · Argentina · @editorarocco
Nunca tinha ouvido falar em César Aira. Comecei a ler seu perfil na @quatrocincoum e fiquei curioso: um escritor que publica dois livros por ano, por várias editoras pequenas, que não segue muito os padrões. Comprei alguns livros dele, esse furou a fila - e só terminei de ler a matéria no finzinho do livro. Um livro meio doido. A história se passa num prédio de luxo em fase final de construção. Dezenas de personagens são apresentados, para depois se concentrar nos familiares do zelador - e nos fantasmas que habitam o prédio, com a maior naturalidade. Gostei muito de algumas reflexões, principalmente sobre arquitetura e literatura. Em outros momentos ficou enfadonho. Não virei fã de carteirinha de Aira, mas membro honorário. Uma nota para a sofrível tradução.
“Não gostava que a interrompessem quando conversava com uma amiga íntima, tanto mais íntima por estar dentro dela e em nenhuma outra parte”
p. 82 · uma de 10 frases marcadas neste livro
Os muito pobres, e os muito ricos, consideram natural de tirar um máximo proveito de quem têm à frentep. 14
O não construído é característico das artes que exigem para a sua realização o trabalho pago de grande quantidade de gente, a compra de materiais, o uso de instrumentos caros, etcéterap. 67
Mas se poderia pensar em uma arte em que as limitações da realidade tocassem no seu mínimo, em que o feito e o não feito se confundissem, uma arte instantaneamente real e sem fantasmas. Talvez exista, e seja a literaturap. 67
A chave arquitetônica da alternativa construído/não construído, a chave refratária às analogias, é a fuga do tempo em direção ao espaço. Essa fuga é o sonhop. 70
A arquitetura não construída, será a literatura?p. 72
Não gostava que a interrompessem quando conversava com uma amiga íntima, tanto mais íntima por estar dentro dela e em nenhuma outra partep. 82
...às vezes, uma ponta muito dissimulada de tristeza é necessária para que a alegria seja completap. 132
O universo real se mede em milímetros e é gigantesco. Onde há crianças, há sempre uma mediação nas dimensõesp. 8
Os coproprietários faziam a sua própria ideia antecipada da felicidade; viam-na envolta em uma demora que os tornava felizes desde já, uma certa lentidão de desenvolvimentop. 12
Ter dinheiro é uma espécie de virilidade, a única que conta na Argentinap. 149