João Guimarães Rosa · Brasil · @novafronteira
Minha segunda leitura desse volume de Corpo de Baile, que reúne O recado do morro, "Cara-de-bronze" e A estória de Lélio e Lina. Dessa vez, acompanhando um curso sobre o livro e lendo críticas aos textos. Foi uma leitura muito mais rica e prazerosa. Guimarães Rosa é um gênio. A quantidade de lições sobre a vida e o amor é infinita. A cada leitura, descubro um novo riozinho.
“No ir - seja até aonde se for - tem-se de voltar; mas, seja como for, que se esteja indo ou voltando, sempre já se está no lugar, no ponto final”
p. 134 · uma de 29 frases marcadas neste livro
Fim do campo, nas sarjetas entremontãs de bacias, um ribeirão de repente vem, desenrodilhado, ou o fiúme de um riachinho, e dá com o emparedamento, então cava um buraco e por ele se soverte, desparecendo num emboque, que alguns ainda têm pelo nome gentio, de anhanhonhacanhuvap. 27
Tinha medo de ninguém, assim descarecia de fígado ou peso de cabeça para guardar rancorp. 30
Todo buriti é uma esperançap. 127
A gente sabe que esses silêncios estão cheios de mais outras músicasp. 132
No ir - seja até aonde se for - tem-se de voltar; mas, seja como for, que se esteja indo ou voltando, sempre já se está no lugar, no ponto finalp. 134
A vida é certa, no futuro e nos passados...p. 143
Viver é ver as bobagens que inté o dia de ontem a gente fez...p. 172
E aí Lélio súbito pensou uma coisa, que assustava: que o princípio de toda pior bobagem é um se prezar demais o próprio de sua pessôap. 175
Mal ouviu o que ela dizia, e tinha ouvido tudo o que ela tinha ditop. 207
'Festa, meu Mocinho, é o contrário de saudade' - dona Rosalina falou. Para se aguentar a vida no atual, a gente carece das duas...p. 212
A única coisa que tem importância, é o sentimento de cada ump. 224
Sempre há remorso na gente, enquanto um vive. O remorso não se sabe, é escondido. Tudo é remorsop. 234
Mas tudo nesta vida ia indo e variava, de repente: eram as pessôas todas se desmisturando e misturando num balanço de vai-vem, no furta-passo de uma contradansa, vago a vagop. 234
Alegria se guarda, tristeza não se guardap. 242
A vida era curta demais para nela se trabalhar e divertir; para que tantas dificuldades?p. 32
E assim seguiam, de um ponto a um ponto, por brancas estradas calcáreas, como por uma linha vã, uma linha geodésica. Mais ou menos como a gente vive. Lugares.p. 33
Faltava a saudade, de sopé. Toda aquela viajada, uma coisa logo depois de outra, entupia, entricheirava; só no fim, quando se chega em casa, de volta, é que um pode livrar a ideia do emendado de passagens acontecidasp. 61
Quanta coisa que a gente não sabe nunca no escuro, sufocado: como o glude frio das minhocas da terrap. 85
Amigo, cada um está sempre procurando todas as pessôas deste mundop. 102
No coração a gente tem é coisas igual ao que nem nunca em mão não se pode ter pertencente: as nuvens, as estrelas, as pessoas que já morreram, a beleza da cara das mulheres...p. 103
O homem envelhece é porque não aguenta viver, ainda não sabe, e tem medo da morte: então, vai envelhecendop. 115
Ninguém não enxerga um palmo atrás do seu narizp. 142
Estou escutando a sede do galop. 144
Tinha vexame de tudo o que era e do que não erap. 153
O Marçal era o melhor de todos, alegre e sincero, Lélio ia ver...p. 159
Ele era seco e duro, mas no fundo - como uma pessôa regulada no meio de nem alegre nem triste, só cheia de destinosp. 169
Nem ele pôde abrir nem ouvir palavra nenhuma, ela se abraçou, se agarrou com ele, era um corpo quente, cobrejante, e uma boca cheirosa, beiços que se mexiam mole molhados, que beijando. Ali mesmo, se conheceram em carne, souberam-sep. 207
O que existe na gente, existe nos outrosp. 238
Quanto mais que fingia semblante alegre; os outros o viam alegre; e de repente ele estava tornado em si, no em mesmop. 241