Ferreira Gullar · Brasil · @companhiadasletras
Fui para o Maranhão e escolhi uma obra de um autor maranhense para ler durante a viagem. Poema sujo é considerada a obra-prima de Ferreira Gullar. Um poema que ele escreveu no exílio na Argentina, nos anos 70, e que é uma espécie de relato autobiográfico, ou acerto de contas de sua trajetória. Há uma presença muito forte da cidade de São Luís e de suas memórias da infância. Tinha ouvido muitas vezes o Trenzinho do Caipira, do Edu Lobo, mas não sabia que a letra era extraída desse poema. Estou lendo mais poesia neste ano, e acho que estou dando sorte. Gostei muito e me tornei um admirador de Ferreira Gullar. A edição tem um ensaio do Antonio Cícero e um texto em que Gullar relata como foi a escrita do poema, ambos muito valiosos.
“Mas sobretudo meu corpo nordestino mais que isso maranhense mais que isso sanluisense mais que isso ferreirense newtoniense alzirense”
p. 40 · uma de 9 frases marcadas neste livro
Não sei de que tecido é feita minha carne e essa vertigem que me arrasta por avenidas e vaginas entre cheiros de gás e mijo a me consumir como um facho-corpo sem chama, ou dentro de um ônibus ou no bojo de um Boeing 707 acima do [Atlânticop. 34
Te cubro de flor, menina, e te dou todos os nomes do mundo: te chamo aurora te chamo água te descubro nas pedras coloridas nas artistas de cinema nas aparições do sonhop. 35
Era vida a explodir por todas as fendas da cidade sob as sombras da guerra:p. 36
Mas sobretudo meu corpo nordestino mais que isso maranhense mais que isso sanluisense mais que isso ferreirense newtoniense alzirensep. 40
lá vai o trem com o menino lá vai a vida a rodar lá vai ciranda e destino cidade e noite a girar lá vai o trem sem destino pro dia novo encontrar correndo vai pela terra vai pela serra vai pelo mar cantando pela serra do luar correndo entre as estrelas a voar no arp. 46
muitos muitos são os dias num só diap. 53
parentes tuberculosos em quartos escuros, tossindo baixo para que o vizinho não ouça, crianças que mal começam a andar agarrando-se às pernas de pais que nada podemp. 78
como se não tivesse sentido rir numa cidade tão pequenap. 101
e os carinhos mais doces mais sacanas mais sentidos para explodir como uma galáxia de leite no centro de tuas coxas no fundo de tua noite ávida cheiros de umbigo e de vagina graves cheiros indecifráveis como símbolos do corpop. 37