Thomas Mann · Alemanha · @companhiadasletras
Minha iniciação em Thomas Mann. Subindo devagarinho a montanha, por essas duas novelas publicadas na mesma edição. A morte em Veneza conta a história de um escritor alemão, já consagrado nos seus 50 anos. Lá pelas tantas ele sai de férias, vai parar em Veneza e vamos acompanhando suas mais íntimas observações sobre as pessoas e os fatos. Estilo impecável. Tonio Kröger é também um escritor alemão. Seguimos sua jornada desde garoto, suas inseguranças e comparações com os colegas. Tonio vem de Antonio, nome que sua mãe trouxe de "lá de baixo do mapa". A mãe do próprio Thomas Mann era brasileira; ao final dos das novelas, há dois ensaios de Anatol Rosenfeld sobre Mann, e ele avalia o impacto desse sentimento na obra.
“E também tudo era como sempre fora: eles não os entenderiam, escutariam perplexos o que ele teria a dizer. Pois a língua deles não era a sua língua”
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A solidão produz a originalidade, a beleza ousada e singular, o poema. Mas também será a fonte de tudo quanto for errado, desproporcionado, absurdo, ilícitop. 33
Era bom, sem dúvida alguma, que o mundo conhecesse apenas a obra sublime e não as suas origens, nem as circunstâncias da sua criação, uma vez que a noção das fontes nas quais se inspirava o artista muitas vezes nos deixaria confusos ou apavorados e assim anularia o efeito de obras magníficasp. 55
Nenhuma questão, nenhuma outra no mundo é tão torturante quanto a da criação artística e de sua influência sobre os seres humanosp. 112
Fosse como fosse, Aschenbach deu-se conta, com surpresa total, de uma singular expansão de seu íntimo, de uma espécie de inquietação nômade, de uma saudade juvenil, ardente, de terras longínquas, de uma sensação tão viva, tão veemente e, todavia, a tal ponto olvidada ou desaprendida desde tempo imemoriais, que ele, cativado, com as mãos nas costas e os olhos pregados no chão, imobilizou-se, a fim de analisar a essência e a finalidade de tal sentimentop. 13
Por demais absorvido pelos problemas que lhe impunham o próprio eu e a alma europeia, excessivamente amarrado pelo dever de produzir e ainda demasiado avesso a quaisquer distrações para ser capaz de amor o colorido mundo exterior, dera-se por satisfeito com a opinião que cada um, sem jamais se distanciar muito do seu ambiente habitual, pode formar a respeito da superfície da Terrap. 14
Tratava-se do ímpeto de fugir - era preciso confessá-lo a si mesmo! -, de saudade de coisas novas, longínquas, da ânsia de liberdade, exoneração, esquecimentop. 14
Era perdoável - e no fundo significava um autêntico triunfo do seu procedimento consciencioso - que pessoas mal informadas considerassem produto de concentradas forças e longo fôlego o panorama que ele pintara dos maias ou a vasta epopeia em cujas páginas se desenrolava a vida heroica de Frederico, quando, na realidade, tratava-se de obras elaboradas em minúscula progressão cotidiana, edificadas à base de centenas de inspirações avulsas até tornarem-se grandes, e que somente chegavam a ser magníficas, perfeitas em todos os seus pormenores, porque o autor, com paciência e tenacidade comparáveis àquelas que levaram tal rei à conquista de sua província natal, aguentara por anos e anos a tensão originada por um e o mesmo trabalho, dedicando exclusivamente à própria elucubração os momentos mais lúcidos e mais dignosp. 19
A felicidade do escritor reside no pensamento que possa ser convertido inteiramente em sentimento e no sentir capaz de se tornar inteiramente pensarp. 55
Mas o medo de um prejuízo geral, a consideração pela recém-inaugurada exposição de pintura nos jardins públicos, o receio de enormes perdas que, no caso de um pânico ou de um descrédito da cidade, sofreriam os hotéis, os lojistas e todos os ramos da exploração do turismo, evidenciou-se mais poderoso do que o amor à verdade e o respeito aos convênios internacionaisp. 73
Sim, quando de manhã, à beira-mar, seu olhar se fixava, grave, irresponsável, irremovível, no almejado objeto, quando, ao cair da tarde, perseguia-o de modo indecoroso através de ruelas onde circulava, oculta e asquerosa, a morte, parecia-lhe verossímil o monstruoso evento e nula a lei moralp. 77
Pois a felicidade, ele dizia a si mesmo, não é ser amado; isso é uma satisfação da vaidade misturada ao asco. A felicidade é amar e, talvez, lograr pequenas aproximações ilusórias ao objeto de nosso amorp. 103
...um café, você sabe, representa por assim dizer a esfera apartada e sublime da literatura, na qual somos capazes de ter somente as mais nobres ideias...p. 109
E também tudo era como sempre fora: eles não os entenderiam, escutariam perplexos o que ele teria a dizer. Pois a língua deles não era a sua línguap. 142