Simões Lopes Neto · Brasil · @lepmeditores
Peguei esse livro do armário pela comoção das enchentes no Rio Grande do Sul. Fiquei com vontade de ler essa obra muito citada do regionalismo gaúcho. Eu tinha comprado o livro depois de ter descoberto que Guimarães Rosa era um admirador de Simões Lopes Neto - fez várias anotações em uma edição de Contos gauchescos & Lendas do Sul. Foi uma leitura difícil, que retrata um universo muito específico e que não me disse muito. Lopes conta vários causos do gaúcho do campo. Gostei de dois contos: Contrabandista (principalmente) e Os cabelos da china.
A
“Estancieira ou peonas, é tudo a mesma coisa... tudo é bicho caborteiro...; a mais santinha tem mais malícia que um sorro velho!...”
p. 32 · uma de 14 frases marcadas neste livro
Isto de china e gatos.... quem amimar sai arranhadop. 80
Vancê creia: o coração, às vezes, trepa, dentro da gente, o mesmo que jaguatirica por uma árvore acima!...p. 98
Vê vancê, a gente saber falar, dizer muitas enredices adocicadas, mas às vezes a palavra nem dá para partir... e caladito no mais, um simples beijo, largado de tronco, chega ao laço, folheirito, de rebenque alçado!p. 142
ficou-se olhando, sem mira, para muito longe, para onde a visão não chegava mas onde o sonho acordado que havia nos seus olhos chegava de sobra e ainda passava... ainda passava, porque o sonho não tem lindeiros nem tapumes...p. 163
Não bulia uma folha; o silêncio, nas sombras do arvoredo, metia respeito... que medo, não, que não entra em peito de gaúchop. 22
Estancieira ou peonas, é tudo a mesma coisa... tudo é bicho caborteiro...; a mais santinha tem mais malícia que um sorro velho!...p. 32
que é sempre um lugar tristonho onde parece que a gente vê gente que nunca viu... onde parece que até as árvores perguntam a quem chega: - onde está quem me plantou?... onde está quem me plantou?...p. 47
O peão puxou da faca e dum golpe enterrou-a até o cabo, no sangradouro do boi manso; quando retirou a mão, já veio nela golfada espumenta do sangue do coração...Houve um silenciozito em toda aquela gentep. 57
Barbaridade! Nem há nada como tomar mate e correr eguada!p. 62
E pra mal dos pecados ainda o comandante traz uma china milongueira, numa carreta toldada, que só serve para atrapalhar a marcha... A china é lindaça...mas é o mesmo.... sempre é um estorno!...p. 78
O moço Costinha de vez em quando aparecia por lá, matava as saudades; fazia umas agachadas, e vinha-se embora trazendo nos olhos o encantamento dos olhos da namoradap. 87
Sem querer fiquei vendo as forças que iam-se movendo e se distanciando.... e num tirão, quando ia montar de novo, sem saber pra quê...foi que vi que estava sozinho, abandonado, gaudério e gaúcho, sem ninguém pra me cuidar!...p. 102
E cada um tinha que ser um rei pequeno... e aguentar-se com as balas, as lunares e os chifarotes que tinha em casa!... Foi o tempo do manda-quem-pode!... E foi o tempo que o gaúcho, o seu cavalo e o seu facão, sozinhos, conquistaram e defenderam estes pagos!...p. 105
O mesmo silêncio foi fechando todas as bocas e abrindo todos os olhosp. 109