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Cachorros de palha: reflexões sobre humanos e outros animais

John Gray · Reino Unido · @editorarecord

Período
29 ago – 27 set
30 dias
Tempo de leitura
4h32
cerca de 9 min por dia
Páginas
238
físico
Ritmo
53 p/h
páginas por hora
Nota
★★★★★
5 de 5

São três ideias: o ser humano não é diferente dos outros animais; o humanismo é uma espécie de religião; e o progresso científico não significa que viveremos em um mundo melhor.

O livro é um ensaio filosófico de John Gray, uma espécie de manifesto contra o humanismo secular. O texto não é técnico nem sistemático. Gray constrói seu argumento em passagens curtas, quase aforismos, recorrendo a diversos pensadores para sustentar ou provocar suas ideias.

A leitura me impactou porque até então me considerava um humanista e avesso a dogmas religiosos. Gray questiona essas convicções ao mostrar quanto o humanismo preserva ideias da religião, especialmente do cristianismo. O ponto central passa por algumas perguntas incômodas: por que seríamos melhores ou diferentes dos outros animais? O que nos garante que os avanços científicos levarão a um mundo melhor? Há progresso no conhecimento, mas isso não significa progresso na ética.

Gray também questiona a ideia de que nossa conduta seja fruto de escolhas plenamente conscientes. Muito do que fazemos nasce de processos que nem sequer percebemos, enquanto acaso e necessidade têm um peso muito maior em nossas vidas do que gostamos de admitir.

O curioso é que essa visão parece profundamente pessimista, mas retira certo peso das costas. O planeta continuará sem a nossa espécie. Não precisamos carregar a culpa de salvar o mundo, nem encontrar um propósito para a existência. Talvez baste, como Gray sugere nas últimas páginas, simplesmente ver.

Frase marcada

“Entre os humanos, os melhores enganadores são os que enganam a si mesmos: 'enganamos a nós mesmos para melhor enganar os outros', diz Wright”

p. 40 · uma de 28 frases marcadas neste livro
p. 1p. 238
Todas as frases marcadas
  1. Ao longo dos últimos duzentos anos, a filosofia se libertou da fé cristã mas sem abrir mão do erro capital do cristianismo - a crença em que os humanos são radicalmente diferentes de todos os outros animaisp. 49
  2. Quase tudo que é mais importante em nossas vidas não é escolhido. O tempo e o lugar em que nascemos, nossos pais, a primeira língua que falamos - isso são acasos, não escolhas. É o fluir casual das coisas que molda nossas mais significativas relações. A vida de cada um de nós é um capítulo feito de eventos acidentaisp. 113
  3. Os humanos pensam que são seres livres, conscientes, quando na verdade são animais enganadosp. 124
  4. A história não é progresso ou declínio, mas ganhos e perdas recorrentes. O avanço do conhecimento nos engana quando nos induz a pensar que somos diferentes de outros animais, mas nossa história mostra que isso não ocorrep. 155
  5. Os humanistas gostam de pensar que têm uma visão racional do mundo, mas sua crença essencial no progresso é uma superstição, mais afastada da verdade sobre o animal humano do que qualquer outra das religiões existentesp. 11
  6. O humanismo não é ciência, mas religião - a crença pós-cristã de que os humanos podem fazer um mundo melhor do que qualquer outro em que tenham vivido até agorap. 13
  7. Os humanos são como qualquer outra praga animal. Não podem destruir a Terra, mas podem facilmente danificar o ambiente que os sustenta. A consequência mais provável entre as quatro mencionadas por Lovelock é uma versão da primeira, na qual a primatemaia disseminada é curada por uma queda, um grande escala, do número de humanosp. 27
  8. Os piores crimes da humanidade só foram possíveis devido à tecnologia modernap. 29
  9. A ciência nos dá um senso de progresso que a vida ética e a vida política não podem darp. 33
  10. Entre os humanos, os melhores enganadores são os que enganam a si mesmos: 'enganamos a nós mesmos para melhor enganar os outros', diz Wrightp. 40
  11. Numa competição por parceiros, uma capacidade de autoengano bem desenvolvida é uma vantagem. O mesmo é verdade na política e em muitos outros contextosp. 40
  12. O ser humano precisa deixar de lado esses erros e aceitar que sua existência é inteiramente acidentalp. 43
  13. Novamente, o que quer que façamos, não podemos escapar da culpa; estamos condenados a escolher sem termos nenhuma base para nossas escolhas, e estas, de maneira um tanto misteriosa, sempre serão culpáveis. Obviamente, essas são as ideias cristãs da Queda do Homem e do Pecado Original, recicladas por Heidegger com um tom que soa existencialistap. 60
  14. A Europa deve muito de sua história assassina a erros de pensamento engendrados pelo alfabetop. 67
  15. ...nossas mais profundas motivações estão fora do alcance do escrutínio consciente; quase toda a nossa vida mental tem lugar sem nosso conhecimento; os atos mais criativos da vida da mente acontecem sem serem notados. Muito pouco do que tem consequência em nossas vidas requer consciência. Muito do que é vitalmente importante só acontece na ausência delap. 70
  16. Se nossas ações são causadas, então não podemos agir diferente do que agimos. Nesse caso, não podemos ser responsáveis por elas. Podemos ser agentes livres apenas se somos autores de nossos atos; mas nós próprios somos produtos do acaso e da necessidadep. 74
  17. Não podemos nos livrar das ilusões. A ilusão é nossa condição natural. Por que não aceitá-la?p. 88
  18. Assassinato em massa é um efeito colateral do progresso tecnológico. Desde o machado de pedra, os humanos têm usado suas ferramentas para trucidar uns aos outrosp. 97
  19. Hoje todo mundo sabe que desigualdade é errado. Há um século todo mundo sabia que sexo homossexual era errado. As intuições que as pessoas têm a respeito de questões morais são intensamente sentidas. Também são superficiais e transitórias ao extremop. 107
  20. A justiça é um artefato do costume. Onde os costumes são instáveis, seus princípios logo se tornam datados. As ideias de justiça são tão eternas quanto os chapéus da modap. 107
  21. O ser humano mais livre não é o que age de acordo com razões que escolhe para si mesmo, mas o que nunca precisa escolher. Em vez de se agoniar entre alternativas, responde sem esforço às situações tal como surgem. Ele não vive como escolhe, mas como precisap. 117
  22. O Homo rapiens é apenas uma entre muitas e muitas espécies, e não obviamente merecedora de ser preservada. Mais tarde ou mais cedo, estará extintap. 151
  23. Há progresso no conhecimento, mas não na éticap. 155
  24. Com essa mutação na guerra, a pressão para manter a coesão social é relaxada. Os ricos podem passar suas vidas sem contato com o resto da sociedade. Desde que não representem uma ameaça para os ricos, os pobres podem ser deixados por conta própria. A social-democracia foi substituída por uma oligarquia de ricos, como parte do preço da pazp. 162
  25. Os humanos não são mais senhores das máquinas do que o são do fogo ou da roda. As formas artificiais de vida e inteligência que estão construindo hoje escaparão do controle humano do mesmo modo como fizeram as formas de vida que ocorrem naturalmente. Poderão até mesmo substituir seus criadoresp. 182
  26. A vida espiritual não é uma busca por significado, mas um libertar-se delep. 192
  27. O que poderia ser mais deprimente do que a perfeição da humanidade? A ideia de progresso é apenas o anseio de imortalidade numa versão tecnofuturistap. 193
  28. Será que não podemos pensar o propósito da vida como sendo simplesmente ver?p. 194
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