Livaral Livros no varal,
ideias no ar.
Leituras vizinhas
5º2026 6º2026 7º2026 8º2026 9º2026 10º2026
8/2026

Terra de empusas: uma história de terror no sanatório

Nobel2018Prêmio Nobel de Literatura 2018

Olga Tokarczuk · Polônia · @todavialivros

Período
11 mai – 29 ago
111 dias
Tempo de leitura
9h08
cerca de 5 min por dia
Páginas
333
físico
Ritmo
36 p/h
páginas por hora
Nota
★★★★★
5 de 5

Essa foi minha primeira leitura de Olga Tokarczuk, ganhadora do Nobel. É uma autora de enorme domínio narrativo. A escrita é bonita e precisa, mesmo nas frases longas, que normalmente não são minha preferência. O romance começa devagar, construindo o lugar e seus personagens, e cresce à medida que uma sensação de estranheza toma conta da história.

A história se passa em 1913, pouco antes da Primeira Guerra, numa pequena cidade de uma região entre Polônia/Alemanha que recebe tuberculosos. É para lá que vai Mieczysław Wojnicz, um jovem polonês deslocado e inseguro, que passa a conviver com um curioso grupo de homens.

Li que o romance dialoga com A montanha mágica, de Thomas Mann, que ainda não li. Senti algo de Agatha Christie naquele grupo confinado, nas conversas e na suspeita permanente sobre as intenções de cada personagem. E, por alguma razão, li o livro inteiro com as cores de um filme de Wes Anderson.

Wojnicz é bombardeado pelas opiniões de um bando de sabichões que discute política, filosofia, ciência. Tudo desemboca na inferioridade das mulheres. A ironia de Tokarczuk é clara desde o início. Também aparece a instabilidade da Europa, onde fronteiras, nacionalidades e identidades pareciam menos sólidas às vésperas da guerra.

Por trás de tudo corre um mistério. Há mortes, rumores e uma ameaça no ar. As empusas do título são criaturas da mitologia grega que assumem formas sedutoras. O terror prometido pelo subtítulo é sutil: fica rondando as conversas, a paisagem e a sensação de que Wojnicz não compreende inteiramente o lugar em que foi parar.

No meio da minha leitura, Tokarczuk se envolveu numa polêmica por falar sobre inteligência artificial e escrita. Achei o cancelamento uma bobagem. A coincidência foi curiosa enquanto eu descobria uma autora com tamanho controle sobre a língua e a ficção.

Levei mais tempo que o normal para terminar porque larguei o livro por vários dias, por outros motivos.

Frase marcada

“Não, não vamos considerar isso uma obsessão, no máximo uma inocente hipersensibilidade. As pessoas deveriam se acostumar a serem observadas”

p. 19 · uma de 28 frases marcadas neste livro
p. 1p. 333
Todas as frases marcadas
  1. ....o senhor concorda comigo que o ser humano existe apenas dentro da língua? Tudo fora da língua é animalesco e indiferenciado. É a língua que faz com que sejamos aquilo que somos
  2. ...cada um de nós atinge determinado patamar de suas possibilidades e, a partir desse momento, para de se desenvolver. É isso a velhice, essa incapacidade para mudanças. Permanecemos em nosso caminho. A uns isso acontece na metade da vida, logo depois de terminarem os estudos. Alguns outros, mas isso é raro, desenvolvem-se até a velhice tardia, na verdade, até o momento da morte
  3. Em cada um de nós existe um sentimento de inadequação, de que nos falta algo que todos os outros têm. Por toda a vida precisamos lidar com esse sentimento de inferioridade, superá-lo ou atrelá-lo ao carro de nossas ambições e da ânsia destrutiva pela perfeição. E o que é a perfeição, alguém sabe?
  4. Somos atraídas pelas frestas entre as tábuas do assoalho - e ali desaparecemosp. 15
  5. As pessoas se espiam. Adoram isso de olhar para uma pessoa quando ela não tem consciência disso. Julgar, comparar. Aquele que é espiado se torna impotente, torna-se inconsciente de tudo, uma vítima indefesap. 16
  6. Não, não vamos considerar isso uma obsessão, no máximo uma inocente hipersensibilidade. As pessoas deveriam se acostumar a serem observadasp. 19
  7. O breve e agradável sorriso revelou, por um instante, seus grandes dentes amarelados, cuja cor combinava com o dourado desgastado do relógio preso a uma corrente afixada no aventalp. 23
  8. Os sapatos eram a parte inferior de um saco alongado de formato indefinido que, ao final, revelou-se um corpo humanop. 36
  9. O pai considerava que todas as tragédias nacionais e todos os fracassos de formação eram culpa de uma criação branda demais, a qual traz consigo feminilidade, sentimentalismo e uma passividade chamada, segundo a moda de hoje, de 'individualismo'p. 39
  10. Não, não obstante, consideramos que o mais interessante sempre permanece na sombra, naquilo que é invisívelp. 45
  11. - Como pessoas racionais, que conseguem, com a cabeça erguida, suportar as adversidades do destino, os senhores não deveriam se desassossegar com o fato de que a súbita morte de alguém pudesse mudar seus planos. A vida precisa seguirp. 52
  12. Aquilo que vier a ser, certamente não será ruim, pois o controle será entregue a ferramentas, instrumentos e utensílios brilhantes e esterilizados. E esses são, por sua vez, consertáveis e, portanto, quase imortaisp. 69
  13. ...símbolo da civilização, uma daquelas obras de arte que são eixos da cultura e ao redor dos quais nos organizamos espiritual e socialmente, e que a humanidade tem a obrigação de proteger essas obras acima de tudo. Herr August, pronunciando-se sobre a questão, adotava um tom de sincera exaltação, parecia que todas as suas palavras começavam com letra maiúscula, e seus lábios, querendo pronunciá-las bem, como que sobrecarregados pelo peso das iniciais, inchavam-se e umedeciam-se de saliva de modo que, a cada P ou B, Herr August pulverizava gotinhas de saliva, decerto cheias dos ainda misteriosos bacilos de Kochp. 90
  14. Só os grandes são fortes. Só o que é diverso pode resistir aos tempos mais duros. A Polônia, se ressurgisse, seria um país fraco, as feridas das partilhas ainda se fariam sentir por muitos anosp. 106
  15. Considerava que a moda de Estados nacionais era passageira e acabaria mal: a divisão artificial de pessoas de acordo com essas categorias tão comezinhas quanto o lugar onde nasceram não corresponde à dificuldade da questão da identitép. 109
  16. Tudo o que é ruim advém das fantasias e ideologias. Não é necessário acrescentar qualquer coisa ao mundo, o mundo é tal como o vemos. É como ép. 118
  17. Wojnicz já percebera que todas as discussões, fossem sobre a democracia, sobre a quinta dimensão, ou sobre o papel do socialismo, a Europa, até mesmo a arte contemporânea, todas no final desembocavam nas mulheresp. 130
  18. Entretanto, aquele retalho sangrento e emplumado, amarrado ao aro do forno, enchia-o de desespero e levava-o a um pranto doloroso e impotente, que era obrigado a esconder do pai, do tio e até mesmo de Jófez. Eles diriam que estava chorando feito mulherzinhap. 133
  19. ...é claro que a mulher deveria ter seus direitos, mas nunca deveria se esquecer de que pertence à sociedade, que institui o Estado para cuidar de seus interesses, então, do ponto de vista lógico, a mulher, hum, hum, pode ser administrada pelo Estadop. 146
  20. - As mulheres também não deveriam se vestir com um uniforme e acumular medalhas a depender de quantas crianças deram à luz, de quantos almoços prepararam, de quantos doentes cuidaram? Apenas isso seria tanto belo quanto justop. 163
  21. Os detalhes daquela tarde aos poucos vão se apagando da memória, contudo agora lhe volta uma imagem concreta, como um retrato perdido e por acaso recuperado que pertencia a um álbum maior. A bochecha e o contorno do maxilar, a pele de pêssego coberta por uma delicada penugem e ainda o cantinho da boca, uma linha delicada, que lembrava uma vírgula, levemente arqueada, como se aqueles lábios mortos se preparassem para um sorrisop. 166
  22. O senhor sabe que a culpa dos nossos fracassos é das mães? São elas que formam nossa relação com o mundo e com o próprio corpo. Essas são as mais novas descobertas da ciência chamada psicanálisep. 169
  23. A passagem do tempo abrandava os cantos e a aspereza, deixava o mundo mais amigávelp. 189
  24. Seremos salvos apenas pela crença na continuidade da cultura, no mito, que é a plataforma da compreensão. Esse mito também é o cristianismo, mas é evidente que não é apenas ele. O círculo da civilização ocidental é algo mais, meu caro, é a quebra do egoísmo do homem e a crença de que o homem é, em essência, bom, mas o mundo o corrompep. 215
  25. - Em se tratando de gênio na literatura, meus caros senhores - disse August, retomando o tema -, o sinal mais concreto de que uma obra é excepcional é o fato de que desagrade às mulheresp. 228
  26. - Cada um de nós é um louco em potencial, meu jovem. A normalidade é uma quimera. Cada um de nós está em cima do muro que divide o mundo interior e o exterior e está balançando perigosamente. É uma posição muito desconfortável, e não são muitos os que conseguem manter o equilíbriop. 254
  27. - Contudo, os demônios existem pelo simples fato de estarmos falando e pensando neles. Por terem surgido poemas e peças de teatro sobre eles. Por as pessoas acreditarem neles, e ali no vilarejo tremerem de medo deles...p. 267
  28. No fundo, permaneceu o mesmo ser humano, só preparado de outro modo; podia-se dizer - servido de outra forma, com outra guarniçãop. 327
Lido junto com
Parecidos no Livaral
Ver o post no @li.varal