Ryszard Kapuściński · Polônia · @companhiadasletras
Esse veio pelo espetáculo @livrometeatro. O folder da peça tem o livro preferido da equipe. Ébano era um deles. Nunca tinha ouvido falar, mas comprei uma edição na Estante Virtual. Ryszard Kapuściński foi correspondente internacional na África ao longo de 40 anos". O livro é uma coletânea de textos de jornalismo literário. São acontecimentos que ele presenciou nas suas andanças. Seu estilo é marcante: narrativa em primeira pessoa e a história começa de uma forma inusitada, que prende a atenção do leitor. Ele tem uma visão muito aguçada e um olhar atento para os detalhes. No prefácio, Kapu diz que o livro não é sobre a África propriamente, mas sobre as pessoas que ele lá encontrou. Depois da leitura, pesquisei sobre o autor e achei algumas acusações de que ele teria inventado alguns fatos (brincam até que ele fazia jornalismo "mágico") e de que tinha uma visão eurocentrista. Pois eu cancelo o cancelamento. Adorei o livro, cheio de histórias interessantes e muito bem contadas. Comecei a leitura na África do Sul, e ela me deu vontade de conhecer todo o continente.
“A vida aqui é uma luta permanente, uma tentativa sem fim de encontrar o equilíbrio, mesmo que instável e precário, entre a sobrevivência e a extinção”
p. 241 · uma de 21 frases marcadas neste livro
A continuidade ainda viva aqui e que une as comunidades específicas é a continuidade das tradições tribais, das cerimônias, do profundo culto aos antepassados. É a comunidade espiritual que une os africanos, muito mais que qualquer comunidade material ou territorialp. 27
A vida é levada minuto a minuto. Cada novo dia é um novo obstáculo a ser contornado. A imaginação não vai além do dia de hoje, não se fazem planos, não se sonhap. 129
Somente por comodidade simplificamos e dizemos 'África'. Na verdade, a não ser pela denominação geográfica, a África não existep. 7
...estamos naquele lugar do muno em que a natureza, livre e em explosão, trabalha incessantemente, nasce, cresce, floresce e, ao mesmo tempo, adoece, se decompõe, apodrece e se transforma em póp. 11
O ar, quando parado, não vale nada, mas basta que comece a se movimentar para adquirir valorp. 21
- Essa gente tem uma fantástica aptidão para esperar!p. 24
O problema da África reside na contradição entre o homem e seu ambiente, entre a imensidão territorial do continente (mais de 30 milhões de quilômetros quadrados) e o homem que o habita - pobre, indefeso, descalço. Basta olhar em qualquer direção, tudo é distante, tudo é desertop. 26
Graças às dificuldades de comunicação, várias culturas e tradições africanas puderam permanecer inalteradas até os dias de hojep. 32
Essa gênese colonial dos países africanos - segundo a qual o funcionário europeu era remunerado muito além do que merecia, e que foi acolhida sem nenhuma alteração pelos habitantes locais - desencadeou, na África independente, uma selvagem e impiedosa luta pelo poderp. 44
Vive-se de forma luxuosa, principalmente por não ter de se preocupar com os afazeres domésticos: tudo é feito por um exército de silenciosos, atenciosos e discretos empregadosp. 46
Sim, ao olhar para mim agora ele deve estar pensando: 'Este é o branco que tirou tudo de mim, que açoitou meu avô, violou minha irmã. Aqui está ele bem na minha frente, deixe eu dar uma boa olhada nele!' Eu não conseguia resolver no íntimo a questão da culpa. Aos olhos deles, eu era culpado por ser brancop. 49
A cor da minha pele, embora me cobrisse de privilégios, também me mantinha na gaiola do apartheidp. 49
Nada enfurece mais os africanos que esse tipo de tratamento, como se eles nada mais fossem que objetos ou instrumentos. Sentem-se ofendidos, degradadosp. 147
A vida aqui é uma luta permanente, uma tentativa sem fim de encontrar o equilíbrio, mesmo que instável e precário, entre a sobrevivência e a extinçãop. 241
O amanhecer e o anoitecer - estes são os períodos mais agradáveis na África. O sol ainda não arde, nos permite existir e viverp. 244
Aqui, culpa e castigo andam em par, são uma unidade indissociável, não deixam espaço para dúvidas, nenhuma fenda. Na tradição africana não há lugar para perplexidades e para um drama de Raskolnikovp. 325
Aqui, os limites da memória são também as fronteiras da história. Em tempos remotos, não havia nada. O antes não existe. Uma história é aquela que pode ser lembradap. 348
A África é uma eterna permanênciap. 350
Os objetos adquirem um valor simbólico e metafísico, pois alguém decidiu assim e, graças a essa decisão, elevou-as, transportou-as para outra dimensão, para uma esfera mais alta da existência - a transcendênciap. 352
...o tom, o clima e o padrão dos relacionamentos culturais foram impostos, há séculos, pela escória humanap. 354
O colonialismo foi uma brutal unificação perpetrada a ferro e a fogo! Dez mil nações diferentes foram reduzidas a cinquentap. 356