Claire Keegan · Irlanda · @relogiodagua
Pequenos livrinhos como esse enchem o coração. Não sei como cheguei a ele. Talvez tenha sido pela lista do NY Times ou por outra referência. Ainda não havia uma versão brasileira, então aproveitei uma compra na @bertrandlivreiros e fiquei com a tradução portuguesa. Logo em seguida, foi lançado aqui pela @relicarioedicoes. Na capz diz que é um romance; não estou muito certo. É uma história curta. Pensei nesse livro como uma espécie de Conto de Natal moderno. Somos rapidamente apresentados a uma pequena cidade irlandesa dos anos 1980, com dificuldades financeiras. Bill Furlang é o pai de cinco filhas e vende carvão, fundamental para enfrentar o frio, principalmente no Natal. Ele se sente um sortudo pela vida que leva. Mas às vezes sente um vazio. Qual é o sentido da vida? Trabalhar de segunda a sábado, ir à missa aos domingos? As descrições das cenas, Bill vagando pela cidade, olhando suas personagens e refletindo, parecem cinematográficas. E não à toa já existe um filme baseado no livro. Fazer a coisa certa nem sempre parece fácil. Mas o que vida quer da gente é coragem, isso já aprendemos. E aí percebemos que as coisas só têm o poder que lhes damos.
“Se queres fazer alguma coisa da tua vida, há coisas que tens de ignorar, para poderes seguir em frente”
p. 40 · uma de 10 frases marcadas neste livro
Furlong deu consigo a perguntar se faria algum sentido estar vivo e não ajudar os outros. Seria possível atravessar todos os anos, todas as décadas, atravessar uma vida inteira, sem ser, pelo menos uma vez, suficientemente corajoso para enfrentar o que ali estava e continuar a intitular-se cristão, a olhar-se no espelho?p. 80
Era sempre a mesma coisa, pensou Furlong; avançam sempre mecanicamente, sem pausas, para a tarefa seguinte. Como seria a vida, perguntava-se, se tivessem tempo para pensar, para refletir sobre as coisas?p. 23
Era fácil perceber por que motivo as mulheres receavam a força física, a luxúria e o poder social dos homens, mas elas, com as suas intuições sagazes, eram muito mais profundas: conseguiam prever o que ia acontecer muito antes de acontecer, sonhar com isso durante a noite, ler mentesp. 25
Estava quase com quarenta anos, mas não se sentia a chegar a lado nenhum, nem a fazer nenhum género de progresso, e por vezes não podia deixar de se perguntar qual o sentido dos diasp. 32
Se queres fazer alguma coisa da tua vida, há coisas que tens de ignorar, para poderes seguir em frentep. 40
O golpe foi baixo, mas era o primeiro que Furlong recebia da mulher, em todos aqueles anos juntos. Sentiu uma coisa pequena e dura na garganta, que, por mais que tentasse, não conseguia exprimir nem engolirp. 40
O Natal revelava sempre o que havia de melhor e de pior nas pessoasp. 71
Enquanto atravessavam o rio, os olhos de Furlong voltaram a pousar-se na água escura que corria turvamente, e uma parte dele invejou a certeza que o Barrow possuía do seu próprio curso, a facilidade com que a água seguia, tão livremente, o seu imutável caminho até o mar altop. 79
Pensou na Sra. Wilson, nas suas gentilezas diárias, em como ela o tinha corrigido e encorajado, nas pequenas coisas que ela dissera e fizera e se recusara a dizer e a fazer, e no que ela devia saber, todas essas coisas que, juntas, perfaziam uma vida" (81).
Já conseguia sentir um mundo de problemas à sua espera atrás da porta seguinte, mas o pior que podia ter acontecido também já havia ficado para trás; a ação não realizada, que podia ter sido realizada, e com a qual ele teria de viver o resto da vidap. 81