Lívia Garcia-Roza · Brasil · @tordesilhaslivros
Livia Garcia-Roza nos conduz pela sua jornada de analisada, revelando suas experiências com vários terapeutas e invertendo o jogo ao fazer a análise dos analistas. Intercaladas com cenas de consultórios, estão memórias da autora (que além de escritora, também foi psicanalista), incluindo seu casamento com o escritor (e psicanalista!) Luiz Alfredo Garcia-Roza. Minha relação com o livro foi estranha: comecei muito interessado, depois me senti desconectado, mas no final, voltei a apreciá-lo. Sem querer, eu me tornei um analista da autora, questionando sua juventude deslumbrada e o relacionamento complicado com sua mãe (uma passagem deliciosa do livro é a conversa dela com um analista, talvez Hélio Pellegrino?; ela diz que tem pena de quem tem não tem mãe, ao que ele responde: "E de quem tem, você não tem, não?"). Vá entender o inconsciente! No entanto, ao ler suas postagens no Instagram, descobri uma afinidade com suas reflexões sobre o envelhecimento, transformando minha percepção do livro. E me deu vontade de ler outras coisas do casal. Para quem gosta do tema, recomendo A Vida em Análise (Stephen Grosz) e Talvez você deva conversar com alguém (Lori Gottlieb).
“Inacreditável como uma pessoa consegue acabar com um sintoma com uma única frase. É surpreendente quando se descobre o poder curativo das palavras”
p. 15 · uma de 15 frases marcadas neste livro
Inacreditável como uma pessoa consegue acabar com um sintoma com uma única frase. É surpreendente quando se descobre o poder curativo das palavrasp. 15
Acho mesmo que o grande trabalho começa quando finda o tratamento. Ou se interrompe, como foi o caso. O final da análise se dá quando mudamos a narrativa de nossas vidas, quando descobrimos que nossa história muitas vezes é a nossa prisãop. 36
Esse é o grande ganho de uma análise, a escuta de si própriop. 42
É preciso que uma coisa nos atrapalhe enormemente para que tomemos providênciap. 7
Comecei a me atrapalhar cedo na vidap. 12
Eu era uma jovem desquitada e estava com vinte e poucos anos, tinha uma certa liberdade, isso porque minha mãe vigiava meus horários. Sempre que eu voltava pra casa e enfiava a chave na porta, ela abria do outro lado numa perseguição infindávelp. 13
Eu era uma jovem totalmente deslumbrada e alienadap. 15
Nunca me curei desse abandono. Não sei se algum dia nos curamos do abandonop. 16
Benditas as pessoas que nos aquietam o coraçãop. 18
Que coisa difícil encontrar um analista digno, decente, ético!p. 23
Necessitava me emocionar constantemente. Navegar no pranto, no belo, no comoventep. 27
- Não tenho nada a ver com a sua vida, disse ele. Assim mesmo. Com essas palavras. Um golpe. Baixo. Escutei e levantei-me instantaneamente para morrer fora dalip. 34
E a clínica, como sabemos, é fundamentalmente repetição. Quando mudamos a narrativa de nossa vida, estamos curadosp. 44
O luto talvez seja o maior trabalho que se enfrenta na vida. Poucos suportam. Não é fácil lidar com um passado que foi de duas pessoasp. 46
E assim venho vivendo, amparada pela literatura, despedindo-me da vida que não existe mais. A gente nunca sabe o que vai fazer sem o outro, mas vai fazendo. É assim, dolorosamente assimp. 46