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Palmeiras selvagens

Nobel1949Prêmio Nobel de Literatura 1949

William Faulkner · EUA · @companhiadasletras

Período
25 set – 31 out
37 dias
Tempo de leitura
8h57
cerca de 15 min por dia
Páginas
295
físico
Ritmo
33 p/h
páginas por hora
Nota
★★★★★
4 de 5

Este surgiu para mim no filme Dias Perfeitos (está no Mubi, vão lá ver!). Hirayama lê trechos de Palmeiras selvagens antes de dormir. Win Wenders já havia feito uma referência ao livro em um filme de 1976. A frase mais famosa e citada múltiplas vezes (até em Curtindo a vida adoidado) está no final: "Entre a dor e o nada, escolherei a dor". Foi minha primeira leitura de Faulkner. Não foi fácil. Alguns dias não conseguia avançar mais do que três páginas. O estilo é de frases longas, com idas e vindas e fluxo de consciência do narrador. Não é o meu tipo favorito de literatura. Mas é uma obra que permite muitas interpretações, e eu gosto disso. Ao longo da leitura, fui pesquisando referências, explicações e os significados.

São duas histórias contadas em paralelo: Palmeiras selvagens (um casal improvável lutando para ficar junto) e O velho (um presidiário tentando resgatar uma grávida desabrigada em uma enchente). O título original do livro era I Forget Thee, Jerusalem - é um trecho do salmo 137. Aí as coisas começam a ficar interessantes. Essa passagem trata de justiça e vingança. A editora mudou o nome do livro na primeira publicação, escolhendo The Wild Palms, a narrativa principal. Mas a graça está na relação entre ambas, que está oculta. Exige um esforço para reflexão sobre o que essas personagens têm em comum - e acho que aí está o maior valor do livro. A reparação/punição é a relação mais evidente. Mas também a resiliência: a do médico ouvindo as palmeiras selvagens, a do presidiário cumprindo sua pena e seu destino, a de Hirayama cumprindo sua rotina e a nossa, do leitor, lendo um pouquinho a cada dia.

Hirayama diz: “isso é para a próxima vez”. Ela argumenta quanto será a próxima vez e ele reforça: “a próxima vez é a próxima vez”, e completa “agora é agora e a próxima vez é a próxima vez”.

Frase marcada

“Ela não precisa me tocar, ele pensou. Nem o som da sua voz sequer, nem o cheiro, basta um chinelo, uma destas frágeis instigações venéreas atiradas ao chão”

p. 99 · uma de 27 frases marcadas neste livro
p. 1p. 295
Todas as frases marcadas
  1. Uma boa parcela de qualquer coragem é uma descrença sincera na sortep. 121
  2. Sim — pensou —, entre a dor e o nada, escolherei a dorp. 281
  3. Ela não disse: — Eles não são casados — embora isto estivesse na mente de ambos. Os dois sabiam que, se isso fosse dito em voz alta entre eles, o médico expulsaria os locatáriosp. 10
  4. aquele instinto inato e inextirpável da humanidade em tentar esconder uma parte da verdade até de um médico ou de um advogado por cuja experiência e conhecimento estão pagandop. 14
  5. …a sombra dela também monstruosa, gorgônea por causa dos rolinhos de cabelos cinzentos em rijos papelotes sobre o rosto cinzento sobre a camisola de colo alto que também parecia cinzenta, como se cada roupa que ela possuía tivesse adquirido aquela triste cor férrea da sua implacável e invencível moralidadep. 15
  6. Nenhum dos companheiros de prisão sabia qual fora o seu crime, mas sabiam que estava condenado a cento e noventa e nove anos — este período incrível e impossível de punição ou restrição contendo em si uma qualidade malévola e fabulosa que demonstrava ser a razão pela gual ele estava aqui de tal monta que os próprios homens, os paladinos e os guardiões da justiça e da equidade que o enviaram para cá, se converteram ao julgá-lo em cegos apóstolos, não só da mera justiça, mas de toda a decência humana, instrumentos cegos não da eqüidade, mas de todo o ultraje e vingança humana, agindo em concerto pessoal e selvagem, juiz, advogado e júri que certamente ab-rogavam a justiça e possivelmente até a leip. 26
  7. Parecia vê-los: os anos vazios nos quais sua juventude evaporara — os anos para semear tempestades e cometer arroubos, para os trágicos e efêmeros amores apaixonados da adolescência, para a inocência menino e menina, para a selvagem e importuna carne traiçoeira, que não haviam sido feitos para elep. 33
  8. Ficou pasmo, sem calor nem inveja, com as circunstâncias que poderiam dar a um homem o óbvio tempo livre e os meios de passar os dias pintando coisas como estas, e as noites tocando piano e dando de beber a pessoas a quem ignorava e (pelo menos no seu caso) cujos nomes nem se preocupava em saberp. 37
  9. (ou má-sorte, pois de outro modo ele poderia ter descoberto que o amor não existe mais num só lugar e num só instante e num corpo em toda a terra e em todo o tempo e em toda a abundante vida, do que a luz do sol)p. 41
  10. a segunda vez que o vi entendi o que tinha lido nos livros mas nunca tinha realmente acreditado: que amor e sofrimento são a mesma coisa e que o valor do amor é a quantia que você tem que pagar por ele, e sempre que for uma pechincha você terá enganado a si mesmop. 45
  11. Deveriam ser os livros, as pessoas nos livros inventando e lendo sobre nós — os fulanos e os sicranos, e os Wilbournes e os Smiths — machos e fêmeas porém sem paus ou xotasp. 49
  12. talvez não soframos com o coração, nem também com a sensibilidade e sim com nossa capacidade de dor, ou vaidade ou auto-engano ou talvez até por mero masoquismop. 51
  13. Ouça: tem que ser sempre lua-de-mel. Para todo o sempre, até que um de nós dois morra. Não pode ser outra coisa. Ou céu, ou inferno: nada de um purgatório confortável e pacífico no meio onde eu e você possamos esperar até que o bom comportamento ou a contenção ou a vergonha ou o remorso nos dominemp. 77
  14. é mais apropriado morrer no agradável perfume da mediocridade do que ser salvo do convencionalismo por uma apóstatap. 79
  15. Ela não precisa me tocar, ele pensou. Nem o som da sua voz sequer, nem o cheiro, basta um chinelo, uma destas frágeis instigações venéreas atiradas ao chãop. 99
  16. Ela nadava todas as manhãs, os três maiôs intactos dentro do armáriop. 100
  17. Porém os dias em si continuavam iguais — a mesma recapitulação estacionária do intervalo dourado entre a alvorada e o crepúsculo, os longos dias tranquilos e idênticos, a imaculada hierarquia monótona dos meio-dias cheios do quente mel solar, através dos quais o ano moribundo vagava na degradação vermelha-e-amarela das folhas de árvores decíduas, sem origem e indo para lugar algump. 101
  18. Descobri há uns tempos que é o ócio que cria todas as nossas virtudes, nossas qualidades mais suportáveis - a contemplação, a equanimidade, a preguiga, deixar os outros em paz; boa digestão mental e física: a sabedoria que é se concentrar nos prazeres da carnep. 120
  19. Não é o emprego do dia-a-dia que elege nossas vocações, é a respeitabilidade que nos torna quiropráticos e contadores e pregadores de cartaz e motoristas e escritores de sub-literaturap. 121
  20. Ele teria que se levantar em algum momento, sabia disso, assim como toda a vida consiste em ter que se levantar mais cedo ou mais tarde, e depois ter que se deitar novamente mais cedo ou mais tarde depois de um tempop. 132
  21. Pergunte ao barco. Estou nele desde de manhã e nunca fiquei sabendo aonde queria ir nem para onde eu iap. 137
  22. E ele também ficou sabendo outra coisa sobre o medo, algo que não havia descoberto nem na outra ocasião quando tivera realmente medo — aqueles três ou quatro segundos daquela noite da sua juventude quanta viu o duplo lampejo do cano do revólver do apavorado funcionário do correio até que este pudesse ser convencido de que o seu revólver (do condenado) não podia disparar: que, se você conseguir agüentar o bastante, o medo atinge um ponto em que absolutamente não é mais agonia, mas apenas um tipo horrível de coceira ultrajante, como a que você sente após uma queimadura gravep. 143
  23. Isso é por amor também. Talvez não o nosso. Mas é amorp. 172
  24. No entanto, não podia dizer sim, não podia dizer ‘Está bem’. Podia dizer isto a si mesmo nos bancos do parque, estender a mão sem que ela tremesse. Mas não podia proferir a palavra para ela; ficava deitado a seu lado, abraçava-a enquanto dormia, via desaparecer em si mesmo seu último resquício de coragem e masculinidadep. 192
  25. Mas segundo a cortesia e a moda caipira e provinciana ele não podia perguntar, pois de acordo com a educação que recebera pedir informações era pedir um favor e não se deve pedir favores a estranhosp. 213
  26. — Então como explica este erro? — Ele poderia ter respondido que: Eu a amava. Ele poderia ter dito: Um avaro provavelmente erraria ao explodir o próprio cofre. Deveria ter chamado um profissional, um abridor de cofres que não se importasse, não amassasse os próprios flancos de ferro que guardavam o dinheirop. 258
  27. Para ele tanto faz estar aqui, como lá fora. Não teria pra onde ir se estivesse solto. Nenhum deles tem. Solte um e aposto que está de volta antes do Natal, como se isto fosse uma assembléia ou coisa parecida, por ter cometido o mesmo crime pelo qual foi preso antesp. 286
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