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Patrimônio: uma história real

Philip Roth · EUA · @companhiadasletras

Período
1 jan – 6 jan
6 dias
Tempo de leitura
4h56
cerca de 49 min por dia
Páginas
172
físico
Ritmo
35 p/h
páginas por hora
Nota
★★★★★
5 de 5

Mais uma vez, começo o ano com Philip Roth. Este eu ganhei no Dia dos Namorados de 2021, mas ficou na prateleira. Impressionante como eu tenho lido sobre velhice, doença, morte, finitude da vida, deterioração do corpo e da mente. Patrimônio é a história da doença e da decrepitude do pai de Philip Roth, Herman, um corretor de seguros aposentado de 86 anos. Mas não só sobre isso. A doença é um pretexto para entender "o comovente abismo entre nossos pais e nós". E uma boa dose de autoanálise; em certo sentido, Roth elaborou a si mesmo nessas páginas. É um Roth diferente, teoricamente escrevendo não ficção, mas com o mesmo tino para analisar a alma humana. Ele disseca os fatos, procura afastar as emoções, descrever crua e sinceramente os efeitos da doença. Ainda assim (ou talvez por isso), terrivelmente sensível. É um livro comovente, mas bem-humorado, e extraordinariamente bem escrito. Páginas de imensa admiração de um filho por um pai, mesmo com todas as diferenças e a distância. Um livro sobre decisões difíceis, respeito e compreensão. Claramente escrever esse livro foi um processo terapêutico e de enfrentar de algum modo o inevitável. Que bom que Roth teve a literatura para passar por isso e deixar o legado do pai registrado.

Frase marcada

“Estar sozinho também me possibilitava expressar toda a emoção que eu sentia sem necessidade de assumir uma postura máscula, madura ou filosófica”

p. 12 · uma de 30 frases marcadas neste livro
p. 1p. 172
Todas as frases marcadas
  1. Estar vivo, para ele, é ser feito de lembranças. Para papai, se um homem não é feito de lembranças, não é feito de nadap. 89
  2. Quando causamos devastação, quando destruímos, não o fazemos com punhos furiosos ou planos impiedosos, ou surtos de insana violência, mas com nossas palavras, nossos cérebros, com a capacidade mental, com tudo aquilo que gerou o comovente abismo entre nossos pais e nós - e que eles suaram sangue para nos dar. Encorajando-nos a sermos tão espertos e tão yeshiva buchers, mal sabiam que estavam nos equipando para deixá-los isolados e perplexos diante de toda nossa vigorosa algaraviap. 115
  3. Comer se transformara numa provação deprimente, por isso ele tinha perdido tanto peso e parecia pateticamente subnutridop. 10
  4. Estar sozinho também me possibilitava expressar toda a emoção que eu sentia sem necessidade de assumir uma postura máscula, madura ou filosóficap. 12
  5. Eu havia visto o cérebro do meu pai, tudo e nada fora reveladop. 12
  6. O que os cemitérios provam, ao menos para gente como eu, não é que os mortos estão presentes, mas que se foram de vez. Eles se foram, enquanto nós, por enquanto, não fomos. Isso é fundamental, e embora inaceitável, bem fácil de compreenderp. 16
  7. Mas, na verdade, os entrelaçamentos mais íntimos entre uma mãe e um pai, as dificuldades, as frustrações e tensões duradouras, permanecem para sempre um mistério, sobretudo, talvez, se a gente cresce como um bom menino num lar seguro e organizado - e ao mesmo tempo como uma boa meninap. 27
  8. ...como se apenas os olhos tivessem se salvado, desde 1901, das reverberações daquele dínamo tosco, imperfeito e de fabricação caseira cujo funcionamento obstinado o fizera vencer a corrida de obstáculos que foi sua vidap. 38
  9. A luta de cada um é diferente, e a guerra nunca acabap. 49
  10. ...para conectar o tumor com uma história mais ampla, situando seu sofrimento num contexto onde ele não estava mais a sós com uma doença singular e horrivelmente sua, mas pertencia a um clã cujas atribulações conhecia, aceitava e não tinha alternativa senão compartilharp. 50
  11. ...você não pode impedir seu pai de morrer e talvez não possa impedi-lo de sofrerp. 52
  12. Ele nunca foi capaz de entender que sua capacidade de renúncia e disciplina férrea eram atributos excepcionais de que nem todos partilhavam. Acreditava que, se um homem com suas muitas desvantagens e limitações tinha tais atributos, então todos os possuíam. A única coisa exigida era a força de vontade - como se força de vontade nascesse em árvorep. 56
  13. Eu tinha cinquenta e cinco anos, ele quase oitenta e sete e o ano era 1988: 'Faça o que eu estou dizendo' - e ele fez. Fim de um era, começo de outrap. 59
  14. ...ele não estaria preocupado apenas em reduzir o número de pertences com que teríamos de nos aborrecer após seu enterro. Ele era capaz de um realismo cruel, mas eu não era filho dele à toa, e também podia ser bastante realistap. 65
  15. Sim, o vestiário do Centro - onde eles tiravam a roupa, suavam e fediam, onde, como homens em meio a outros homens, conhecendo cada reentrância de seus corpos velhos, gastos e deformados, jogavam conversa fora e contavam piadas indecentes, e onde, vez por outra, fechavam negócios - aquele era o verdadeiro templo deles e onde todos se mantinham judeusp. 69
  16. Como todos nós, ele só entendia o que entendia, mas então entendia para valerp. 71
  17. Meu coração bombeava sangue como se servisse a dez pessoas e meu pijama estava empapado de suor como se eu tivesse atravessado a noite com um acesso de malária, mas do outro lado da linha se fez silênciop. 73
  18. Mas o que alimenta essa força é o que torna tudo tão pavoroso: a última coisa que ele quer é morrerp. 88
  19. Todas as crianças pagam um preço, e o perdão significa esquecer também o preço que se pagoup. 92
  20. Vou me sentir sozinho e estranho sem ele. Mas como eu podia ter entendido isso antes?p. 93
  21. Ele está te dizendo o que ele quer, e é bem simples atender. Quer dar um jeito na vista. Não é uma criança, atravessou oitenta e seis anos valendo-se de seu próprio tipo de sabedoria, por isso honre essa sabedoria e simplesmente lhe dê o que ele querp. 105
  22. Do ponto de vista orgânico, papai continuava uma maravilha e, por isso, fadado a pagar um alto preço por todop. 116
  23. ....ele permanecia totalmente isolado dentro de um corpo que se tornara um terrível cercado do qual não podia escapar, o derradeiro cercado de um matadourop. 123
  24. ....entendi que até ele morrer eu não podia pedir mais nada para mim - aquilo também estava certo, era o que tinha de ser. A gente limpa a merda de um pai porque ela precisa ser limpa, mas, depois de limpá-la, tudo o que se deve sentir é sentido como nunca antes. E nem era a primeira vez que eu compreendia isso: tão logo a gente supera o nojo, ignora a náusea e descarta aquelas fobias fortalecidas como tabus, há muita vida para ser acalentadap. 126
  25. E, agora que a tarefa fora concluída, não podia estar mais clara para mim a razão pela qual aquilo era certo e era o que tinha de ser. Aquilo era o patrimônio. Não porque limpá-lo simbolizasse alguma outra coisa, mas porque não simbolizava nada, porque era nada mais, nada menos do que realidade existencial nua e crua. Ali estava o meu patrimônio: não o dinheiro, não os tefilins, não a tigela de barbear, mas a merdap. 126
  26. Por que um homem devia morrer? Essa pergunta era suficiente para enfurecer qualquer um. Porra, ele era indispensável, se não mais para outras pessoas, para si próprio. Sendo assim, por que devia morrer?p. 139
  27. Até os filhos da puta morrem. Essa é a única coisa boa que se pode dizer da morte - ela pega os filhos da puta tambémp. 147
  28. Dei-me conta de que nunca havia estado mais perto de meu pai do que naquele momento: não desde os tempos da universidade, quando o levava secretamente para as salas de aula, o homúnculo intelectual por cujo aprimoramento eu me sentia tão responsável quanto pelo meu próprio, jamais nossas vidas tinham sido, se não idênticas, tão entrelaçadas, tão horripilantemente intercambiáveisp. 163
  29. E eu, que havia explicado a papai as cláusulas daquele testamento de saúde e o levara a assiná-lo, não sabia o que fazer. Como dizer não à máquina, se isso significava que ele não precisaria continuar a sustentar aquela batalha estertorante para respirar? Como eu poderia assumir a decisão de que papai diria adeus à vida, a esta vida que só nos é dado conhecer uma única vez?p. 168
  30. Morrer dá trabalhop. 169
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