Roberto Bolaño · Chile · @companhiadasletras
Sempre fico curioso para ler escritores que são idolatrados ou que são referência para outros escritores. Roberto Bolaño estava no radar; depois de A mais recôndita memória dos homens, resolvi encarar. São mais de 100 páginas de um parágrafo em que um crítico literário chileno descreve a sua vida: "uma sucessão de equívocos que nos conduzem à verdade final". Esbarramos em Neruda, Nicanor Parra, e também em Allende e Pinochet. Nesse fluxo de consciência, o narrador (que por acaso é também padre) fala sobre arte, posicionamento político, medo, ódio e as relações interpessoais. É fácil reconhecer o Brasil nesse Chile. A leitura não foi agradável em alguns momentos. A parte final é ótima, o que elevou a avaliação do livro.
“...não havia nada na Terra que satisfizesse mais meus anseios do que ler e exprimir em voz alta, bom boa prosa, o resultado das minhas leituras”
p. 12 · uma de 14 frases marcadas neste livro
Todos, mais cedo ou mais tarde, iam voltar a compartilhar o poder. Direita, centro, esquerda, todos da mesma família. Problemas éticos, alguns. Problemas estéticos, nenhum. Hoje governa um socialista, e vivemos exatamente da mesma maneirap. 95
Neste país esquecido por Deus só uns poucos somos realmente cultos. O resto não sabe nada. Mas as pessoas são simpáticas e conquistam a simpatia das outrasp. 99
Pouco você pode sozinho contra a históriap. 116
...não havia nada na Terra que satisfizesse mais meus anseios do que ler e exprimir em voz alta, bom boa prosa, o resultado das minhas leiturasp. 12
Gostar é bom. Impressionar-se é ruimp. 40
...de que serve a vida, para que servem os livros, são apenas sombrasp. 50
....todos nós, chilenos, somos sodomitas. E eu: todos os homens são sodomitas, todos levam um sodomita na arquitrave da alma, não só nossos pobres compatriotas, e um dos nossos deveres é nos impor a ele, vencê-lo, pô-lo de joelhosp. 52
Não sou um nacionalista exacerbado, mas sinto um amor autêntico pelo meu país. Chile, Chile. Como pudeste mudar tanto?p. 75
Em dar umas aulas de marxismo, não muitas, o suficiente para que certos cavalheiros a quem todos os chilenos querem muito bem tenham uma ideia do que se trata, disse o sr. Odemp. 82
Tive vontade de atirar a xícara numa das paredes impolutas, tive vontade de sentar com a xícara entre os joelhos e chorar, tive vontade de ficar pequeno, mergulhar na infusão quente e nadar até o fundo, onde descansavam como grandes pedras de diamante os grãos de açúcarp. 85
Sabe um homem, sempre, o que está certo e o que está errado?p. 89
...o costume leva a relaxar toda precaução, porque a rotina matiza todo o horrorp. 112
É esse o verdadeiro, o grande terror, ser eu o jovem envelhecido que grita sem que ninguém o ouça?p. 118
...depois voltou a falar do pintor guatemalteco, seco, seco, descarnado, raquítico, chupado, escanifrado, emaciado, macilento, depauperado, consumido, flébil, afilado, numa palavra, magérrimo, a tal ponto que don Salvador se assustou, pensou a que ponto você chegou, fulano, beltrano ou como quer que se chamasse o centro-americano, e seu primeiro impulso, como bom chileno, foi convidá-lo para jantar ou tomar uma once, mas o guatemalteco não aceitou, alegando que lhe dava não sei quê descer à rua naquelas horas, e nosso diplomata perdeu a paciência ou a diplomacia e perguntou desde quando ele não comia, e o guatemalteco disse que tinha comido havia pouco, quando é há pouco?, ele não lembrava, mas don Salvador, ele sim, lembrava-se de um detalhe, e o detalhe era o seguinte: que, quando ele parou de falar e pôs num aparador ao lado do fogareiro uns escassos petiscos que trouxera, quer dizer, quando o silêncio voltou reinar na mansarda do guatemalteco e a presença de don Salvador se tornou leve...p. 33