Philip Roth · EUA · @companhiadasletras
Mais um Roth para começar o ano. Este é da fase final da carreira, quando ele estava impactado pelo fim. O tema é este: nossa hora vai chegar. Não há escapatória. O mais brilhante, o mais saudável, o mais bem-sucedido, todos vamos morrer. E ainda podemos sofrer um pouquinho com um câncer, AVC, uma depressão: a velhice não é uma batalha, é um massacre, segundo ele.
O livro começa no enterro de um sujeito cujo nome não é dito, o tal homem comum. Conta a história de sua vida: a infância de um garoto judeu em NJ, filho do dono de uma joalheira, seu casamento frustrado, a separação que o afastou também dos dois primeiros filhos, um novo casamento e uma nova separação, a amorosa relação com a filha, o trabalho como publicitário, a aposentadoria, a mudança para uma cidadezinha pacata.
Lembrei muito de Patrimônio, outro livro em que ele também discute esse tema do envelhecimento, das dificuldades causadas ao corpo. É algo óbvio, conhecido de todos, mas que só nos causa um impacto após os 40. Escreve Roth: "Vá se preocupar com o fim, dizia ele a si próprio, quando estiver com setenta e cinco! No futuro remoto você terá todo o tempo para sofrer pensando na catástrofe final!". E aí, quando os 70 chegam, não há mesmo jeito.
Outro aspecto que chamou a atenção foi a descrição comovente da relação entre os irmãos. É algo sutil no livro, mas Roth confere uma grande relevância ao amor e à admiração dos irmãos - quem sabe uma homenagem dele ao seu próprio irmão, Sandy Roth.
Nossa hora vai chegar. Saber disso não evita o sofrimento e melancolia da constatação de que não há oposição possível. Quem sabe nos dê alguma energia para aproveitar o que a vida tem de bom - como ler bons livros.
“Porém o espaço antes ocupado por seus corpos agora estava vazio. Aquela substancialidade que perdurara por toda sua existência terminara.”
posição 522 · uma de 33 frases marcadas neste livro
Ele vira seu pai desaparecer do mundo centímetro por centímetro. Fora obrigado a acompanhar todo o processo até o final. Fora como uma segunda morte, não menos terrível que a primeiraposição 577
Havia se casado três vezes, tivera amantes, filhos e um emprego interessante em que conhecera o sucesso, mas agora fugir da morte se tornara a ocupação principal de sua vida, e toda a sua história se resumia ao processo de decadência do corpo.posição 677
A velhice é uma batalha, meu querido, quando não é uma coisa, é outra. Uma batalha implacável, justamente quando você está mais fraco e mais impossibilitado de enfrentar a luta como antes.posição 1384
Se fosse tomar conhecimento do sofrimento mortal de cada homem e mulher que conhecera durante todos os seus anos de vida profissional, da história dolorosa de arrependimento, perda e estoicismo de cada um, de medo, pânico, isolamento e terror, se soubesse que cada coisa que lhes pertencera do modo mais visceral lhes fora arrancada e como estavam sistematicamente sendo destruídos, teria de ficar ao telefone o dia todo, e mais a noite toda, fazendo pelo menos mais umas cem ligações. A velhice não é uma batalha; a velhice é um massacre.posição 1526
Era hora de se inquietar com o aniquilamento. O futuro longínquo havia chegado.posição 1580
Então lembrou-se da máxima estoica de seu pai, de tantos anos atrás, e começou a chorar. “Não há como refazer a realidade”, disse ela ao pai. “O jeito é enfrentar. Segurar as pontas e enfrentar.posição 43
Depois retomou o fio da meada, voltando o olhar para a ampla e ensolarada janela da infância.posição 65
Dorme em paz, papai”, disse Randy, e era aterrador constatar que não havia em sua voz o menor toque de ternura, dor, amor ou perda.posição 124
Todos tinham dito o que tinham a dizer? Não, e ao mesmo tempo é claro que sim. Em todo o estado, naquele dia, tinha havido quinhentos funerais como este, rotineiros, normais e, tirando os trinta segundos inesperados proporcionados pelos filhos—e tirando a ressurreição efetuada por Howie, com tamanha precisão, do mundo inocente que existia antes da invenção da morte, a vida perpétua naquele éden criado pelo pai, um paraíso com apenas cinco metros de fachada e doze de profundidade, disfarçado de joalheria tradicional—, nem mais nem menos interessante que os outros.posição 129
…é justamente o que há de normal nos funerais o que os torna mais dolorosos, mais um registro da realidade da morte que avassala tudo.posição 133
Por que estaria inseguro sobre sua vida, justamente agora que a dominava mais que em qualquer outro momento dos últimos anos?posição 284
Nunca se considerou nada mais que um ser humano comumposição 294
Não era o tipo de homem que gosta de ter duas vidas. Não tinha nada contra as limitações nem contra os confortos do conformismo.posição 299
Era apenas vulnerável, frágil e confuso. E convicto de seu direito, como ser humano comum, de terminar sendo perdoado por todas as privações que tivesse causado a seus filhos inocentes por não querer viver enlouquecido a metade do tempo.posição 301
Ele pensou, feliz por haver sobrevivido: como pode uma pessoa ter uma vontade de viver tão contagiante quanto Howie? Que sorte a minha ter um irmão como ele!posição 383
Passaram-se vinte e dois anos. Vinte e dois anos de saúde de ferro, com a autoconfiança ilimitada que a saúde traz — vinte e dois anos livre do adversário que é a doença e a calamidade sempre à espreita nos bastidores.posição 392
Todos esses anos ele vivera, enquanto aquele menino estava morto — e agora ele era aquele menino.posição 410
A religião era uma mentira que ele identificara ainda bem jovem, e todas as religiões pareciam-lhe insuportáveis, todas as superstições religiosas eram bobagens sem sentido, uma crianciceposição 488
Porém o espaço antes ocupado por seus corpos agora estava vazio. Aquela substancialidade que perdurara por toda sua existência terminara.posição 522
Ao cair sobre a tampa de madeira do caixão, a terra provocou aquele ruído que é recebido por ouvidos humanos como nenhum outro.posição 556
Nancy fora até Starfish Beach para ajudá-lo, e aquela sua filha equilibrada e sensata foi obrigada a reviver as dificuldades que resultaram do divórcio e a confessar que jamais morrera em sua cabeça a fantasia de que seus pais viriam a se reconciliar, algo que passara a metade da vida esperando que acontecesse. “Mas não há como refazer a realidade”, disse ele, em voz baixa, acariciando-a nas costas e nos cabelos, e balançando-a de leve nos braços. “O jeito é enfrentar. Segurar as pontas e enfrentar. Não há outra saída.posição 744
mas naqueles onze meses antes de sua morte parecia tomado pela perplexidade, espantado com sua condição diminuída, aturdido com sua própria impotência, aturdido de pensar que aquele moribundo enfraquecido sentado numa cadeira de rodasposição 825
Cada um tinha vergonha do ser em que se transformara. Até ele, não era mesmo? Vergonha das mudanças físicas. Da diminuição da virilidade. Dos erros que o distorceram, dos golpes — tanto os que ele próprio desferira contra si mesmo quanto os que vieram de fora — que o deformaram.posição 877
Não há nada que não traga riscos, pensava ele, nada, nada — nada que não termine mal, nem mesmo uma bobagem como pintar quadros!posição 986
O que ele viu foi o contorno em alto-relevo de uma velha dormindo. O que viu foi uma pedra, aquele peso de pedra, sepulcral, que afirma: a morte é só a morte — nada maisposição 1139
Mas quanto tempo um homem pode ficar relembrando os melhores momentos da meninice?posição 1208
Meu Deus, pensava ele, o homem que fui! A vida que me cercava! A força que eu tinha! Não havia “alteridade” em lugar algum! Era uma vez o tempo em que eu era um ser humano completo.posição 1245
…conversar é meu único lazer.posição 1479
Seu primeiro amor fora o irmão.posição 1540
Porém agora lhe parecia que ele, como tantos outros idosos, estava vivendo um processo de diminuição progressiva, e seria obrigado a encarar os dias que lhe restavam tal como via a si próprio — dias vazios, noites incertas, suportando com impotência a deterioração física e a melancolia terminal e a espera, a espera por nada.posição 1576
Eram apenas ossos, ossos dentro de uma caixa, mas os ossos deles eram dele, e ele aproximou-se dos ossos o máximo que pôde, como se a proximidade pudesse estabelecer um vínculo com eles e atenuar o isolamento causado pela perda do futuro e religá-lo a tudo o que havia ido embora.posição 1659
Os ossos eram o único consolo que restava para alguém que não acreditava na vida após a morte e sabia, sem nenhuma dúvida, que Deus era uma ficção, e que aquela vida era a única que ele teria.posição 1664
Deixou de ser, libertou-se do ser sem sequer se dar conta disso.posição 1786