Antonio Risério · Brasil · @topbookseditora
Pelé era um alienado? Não defendeu a causa racial como deveria? Essa é a premissa da qual este livro parte. Há um discurso de considerável parcela da crítica de que Pelé poderia ter feito mais pelos negros, poderia ter usado seu prestígio para avançar a posição dos negros na sociedade. Para esses críticos, ele seria antítese de Muhammad Ali, o outro grande esportista do século XX, cuja atuação político-social foi mais intensa.
Desde o título, a posição do autor é clara: esse discurso é uma balela. Pelé tinha orgulho de ser negro. Jogando futebol, tornou-se um mito - "a pessoa de maior habilidade que um dia nasceu neste nosso país". E isso foi o suficiente para contribuir para qualquer luta ou causa social. Ele sustenta essa posição a partir da biografia de Pelé, entrelaçando acontecimentos com o contexto sociocultural brasileiro. Risério exalta a figura de Pelé em várias passagens, reservando a crítica somente para o acordão com Ricardo Teixeira. É um ensaio biográfico, porque Risério escreve em primeira pessoa, assume sua posição e fala o que pensa, apoiado nas leituras de outras biografias, mas também de sua própria memória.
Antonio Risério é uma figura polêmica. Apesar de ser de esquerda, envolveu-se uma briga por rejeitar as pautas identitárias. Ele declara que esse livro é uma tentativa de superar essa discussão, mas o tema ressurge. A posição ideológica contamina as análises. Muita gente torce o nariz só ao ler o nome do autor. A Folha de S.Paulo não gostou do livro, e dá para perceber que é por causa dessa má vontade.
Eu sou um apaixonado por futebol e gostei muito do livro. Não significa que eu concorde com todas as posições do autor. Risério escreve muito bem, é original e autêntico. Escorregou um pouco em questões factuais (confundiu Copa de 2002 com a de 1994, errou um outro fato), que poderiam ter sido corrigidas por um revisor. Mas no geral, é uma bela obra para quem ama o futebol. Pelé foi um gênio da raça.
“Prova de que não há mesmo fórmulas para nada, seja para o amor ou para o esporte: Pelé, o atleta perfeito - Garrincha, o atleta impensável”
p. 221 · uma de 20 frases marcadas neste livro
Desaparecia a vantagem de ser de boa família, de ser estudante, de ser branco. O rapaz de boa família, o estudante, o branco, tinha de competir, em igualdade de condições, com o pé-rapado, o analfabeto, o mulato, o pretop. 41
Nenhum preto, no mundo, tem contribuído mais para varrer barreiras raciais que Pelé. Tornou-se o maior ídolo do esporte mais popular da Terra. Quem bate palmas para ele, bate palmas para um pretop. 46
Daí a importância de Pelé, o Rei do Futebol, que faz questão de ser preto. Não para afrontar ninguém, mas para exaltar a mãe, o pai, a avó, o tio, a família pobre de pretos que o preparou para a glória. Nenhum preto, no mundo, tem contribuído mais para varrer barreiras raciais do que Pelé. Tornou-se o maior ídolo do esporte mais popular da Terrap. 382
De certa forma, o futebol nos dizia que valíamos a pena como povo e naçãop. 434
Neste sentido profundo, portanto, o futebol nos dá uma potente lição de democracia, pois conforme sabemos, vendo nosso time jogar, as leis têm que ser obedecidas por todos, são universais, são transparentes e há um juiz que as representa no calor da disputa. No futebol, portanto, não há golpesp. 457
Com isso, o futebol, antes marcado por práticas preconceituosas, racistas, passou a ter, também, a sua função social no movimento pela superação das discriminações em nosso paísp. 45
A necessidade de ganhar campeonatos e expandir a torcida, em partidas agora assistidas por milhares de pessoas, exigia que os clubes bancassem a sobrevivência dos talentos encontrados nos meios pobre, pretos e mestiços da sociedade e, ao mesmo tempo, evitassem a sangria dos craques para o exteriorp. 50
A espádua, a bunda e as coxas de Pelé: elegância, leveza, precisão e erotismop. 54
A escola brasileira de futebol é filha do barroco, da mestiçagem e da nossa disposição cultural 'antropofágica'p. 78
Porque a coisa me interessa do ponto de vista da leitura compreensiva; porque acho que mesmo a safadeza de Pelé não se reduz a mero estragema antifidelidade. Pelé machista consumado? Oui. Como um brasileiro comum de sua geração. Mas também como os deuses. Não nos esqueçamos de que os olímpicos, os deuses gregos, assim como os athanotoi do panteão nagô-iorubá, eram sexistas e machistasp. 107
Daí, penso eu, que, para Pelé, apesar de uma que outra derrapada inevitável na vida pessoal (ninguém consegue ser integralmente íntegro 24 horas por dia), o futebol, o belo jogo, e uma visão moral do mundo de base cristão nunca se tenham divorciadop. 156
É sempre o cérebro que comanda e decide, sim. Mas é igualmente aqui que Pelé se revela insuperável - na capacidade de pensar com os pésp. 185
Prova de que não há mesmo fórmulas para nada, seja para o amor ou para o esporte: Pelé, o atleta perfeito - Garrincha, o atleta impensávelp. 221
Em segundo lugar, a tese do 'pão e circo' é enraizada em um desdém intelectualista por esportes, simplesmente ocultando um desdém subjacente pelas 'massas'p. 312
Mas qual seria mesmo, da perspectiva dos comunistas, o grande pecado de Pelé e Roberto? Simples. Nenhum dos dois rezava pela cartilha esquerdistap. 346
A pregação neorracista da esquerda identitarista passou a convencer as pessoas de que elas eram vítimas não das circunstâncias objetivas de sua vida, das vicissitudes concretas de sua existência individual, mas de séculos de escravidão. Ou seja: transformaram o estatuto da vítima, que é coisa obviamente aguda, numa entidade crônicap. 367
O que conta é tudo. Vale dizer: é o puro e simples fato da existência de Pelé e de Pelé ser quem ele é. (....) Pelé discursava também em silêncio, sem precisar dizer nada. Discursava com o seu corpo, a sua presença, a sua existência na sociedade e no mundop. 395
A onda que vimos, após a fala do milésimo gol, foi mais uma repetição da mesmíssima coisa: a ideologia e o preconceito cegamp. 401
Mas, se o seu recuo vergonhoso, reatando com Ricardo Teixeira, é algo lamentável e indesculpável, a sua postura e o seu pensamento não estavam presos aí, nem devem aí ser confinados. Pelé teve seus altos e baixos, como acontece na vida de muitos de nós: ou daqueles que não atravessam a vida na mesmice, experimentando-a, antes, como realidade instável, mutável e, em alguns casos, chegando mesmo a sugerir uma montanha-russap. 437
O burocratazinho de merda sabe muito bem com quem está falando e, por isso mesmo, faz questão de pirraçar, a fim de mostrar que, naquele lugarzinho medíocre que ocupa, ele é um verdadeiro imperador, que pode dar ordens a famosos e ricos - não a poderosos, claro, que não se arrisca a perder o emprego. É o reinado absoluto e abominável do 'pequeno poder'p. 449