Dylan Thomas · Reino Unido · @editorawmfmartinsfontes, cadernospoente
Descobri Dylan Thomas no lançamento de Ao pé do bosque torto, uma tradução de Caetano W. Galindo. Um poeta galês, que morreu aos 39 anos e muito influente. Basta dizer que Bob Dylan escolheu esse nome em sua homenagem.
Essa outra tradução de Odorico Leal acabou passando na frente na fila da leitura. São quatro contos: Os pêssegos, Como cães de rua, A velha Garbo (esse eu não gostei tanto) e Escola para bruxas. A contracapa informa que os três primeiros são autobiográficos, o que dá uma outra perspectiva aos textos.
Não foi uma leitura que me encantou. É um estilo lírico, com frases longas, ritmo intenso. Sei que tem seu valor, mas não é o que eu mais curto. O conto de que eu mais gostei foi Os pêssegos, que narra um episódio de um menino humilde numa área rural e o choque de realidades.
“Pêssegos, pêssegos! Quem ela pensa que é? Pêssego não serve? Ao diabo com aquela porcaria de carro e o seu maldito filho! Querendo nos diminuir”
p. 35 · uma de 14 frases marcadas neste livro
Num minuto, eu era uma pequena criatura com frio, esgueirando-me morto de medo por uma passagem escura no meu terninho engomado, a barriga vazia roncando e o coração batendo como uma bomba-relógio, agarrando-me a minha boina de colegial, estranho a mim mesmo, um contador de histórias de nariz arrebitado perdido em suas próprias aventuras, sonhando com o lar; no seguinte, era um sobrinho principesco em roupas elegantes, abraçado e bem recebido, de pé no centro confortável de minhas histórias, ouvindo o relógio que me anunciavap. 11
Pêssegos, pêssegos! Quem ela pensa que é? Pêssego não serve? Ao diabo com aquela porcaria de carro e o seu maldito filho! Querendo nos diminuirp. 35
De uniforme elas não ficam mal. Mas, quando se enfeitam, é um horrorp. 59
A sala de visitas tinha cheiro de naftalina, pelo de bicho, umidade, plantas mortas e ar viciado e azedop. 21
Desvencilhou-se da mobília apertando-se contra o armário, fez tremer broches e bugigangas e deu um beijo na testa de Jackp. 26
Ali eu sentia que todo o meu jovem corpo era como um animal exaltado me cercando, os joelhos esfolados, o coração bombeante, o calor demorado e a profundidade entre as pernas, o suor ardendo nas mãos, os túneis até os tímpanos, as pelotas de sujeira entre os dedos dos pés, os olhos nas órbitas, a voz engasgada, o sangue correndo, a memória ao redor e dentro de mim voando, pulando, nadando, espreitando à espera de se lançarp. 28
Desci da árvore despido de toda dignidadep. 37
Não quero casa, nem lareira. Não tenho nada pra fazer em casa e não quero dormir. Gosto de ficar aqui, sem fazer nada, sozinho no escurop. 46
Era quando eu mais me sentia parte deste mundo remoto e cansativo, ou mais cheio de amor e arrogância e pena e humildade, e não só por mim, pois eu sofria por toda a terra vivente, pelos sistemas insensíveis nas esferas superiores, Marte e Vênus e Brazell e Skully, os homens na China e St. Thomas, as moças indiferentes e as moças disponíveis, pelos soldados e valentões e policiais e compradores judiciosos de livros de segunda mão, pelas mulheres esfarrapadas que se arrastavam pelos muros do museu em busca de uma xícara de chá, e pelas mulheres impecáveis e inalcançáveis das revistas de moda, com seus dois metros de altura, navegando lentamente em cartazes planos e lustrosos por aço, vidro e veludop. 47
Em outras ocasiões vagabundeava por construções onde o céu fazia as vezes de teto, gatos rondavam as escadas, e o vento sacudia os esqueletos dos quartosp. 47
Um dia enfiarei todos num contop. 57
Ali as vogais abertas da cidade se fechavam, as subidas e descidas do sotaque familiar não passavam despercebidas e eram logo abafadasp. 58
A noite me aconteceu de súbitop. 74
Pois o amor assume muitas formas, gato, cão, porco ou bode; havia um amante, enfeitiçado no tempo da eucaristia, agora plasmado na imagem do gato em fugap. 87