Juan Rulfo · México · @editorarecord, BestBolso
É a obra-prima da literatura mexicana. Tinha comprado essa edição de bolso há alguns anos. Volte e meia via alguma referência a Pedro Páramo, e lembro de ter visto alguma comparação com Grande Sertão: Veredas. Uma viagem ao México me fez tirar o livro da prateleira e encarar a leitura. Tenho gostado desse hábito de combinar viagem e literatura.
"Um grande livro sempre fala de nada e, no entanto, tudo está lá", escreveu Mohamed Mbougar Sarr. Pedro Páramo é dessa espécie. São poucas páginas, dezenas de personagens, uma história singela. O narrador vai a uma cidadezinha do interior do México em busca de Pedro Páramo, o pai que nunca conheceu. Mas o livro não é propriamente sobre a história dessas pessoas e de suas relações. É extremamente bem escrito, e diz muito com pouco.
Fiquei um pouco perdido em alguns momentos, sem entender se alguns personagens estavam vivos ou mortos. Depois, saquei que isso não tem relevância. Há uma história de fundo que também é de um conflito social mexicano, em certo sentido semelhante ao brasileiro: donos de terras e o exercício da violência pelos proprietários. Mas a beleza do livro está na multiplicidade de interpretações que ele proporciona. Em tempos de excesso de informação e de coisas muito explicadinhas, é uma benção poder pensar, imaginar, refletir, sonhar com as muitas veredas dessa história.
Logo em seguida à leitura, assisti ao filme que está na Netflix, e achei uma adaptação muito bem feita, a qual eu também recomendo.
“Tive pena porque ela não tornaria a ver o brincar do vento nos jasmins; que fechasse seus olhos para a luz dos dias. Mas por que iria chorar?”
p. 88 · uma de 17 frases marcadas neste livro
- E quem matou você, minha mãe?p. 36
- Para quem estamos devendo? Não me interessa quanto, mas a quemp. 47
A gente se desvivendo por conhecer nem que seja só um tantinho da vidap. 62
Trago os olhos com que ela viu estas coisas, porque me deu seus olhos para verp. 16
Queria ter dito a ela: 'Você enganou-se de endereço. E me deu um endereço errado. E me mandou ao 'onde fica isto, onde fica aquilo?' A um povoado solitário. Procurando alguém que não existep. 20
Só eu entendo como o céu está longe de nós; mas sei como encurtar as veredas. Tudo consiste em morrer, graças a Deus, quando a gente quiser e não quando Ele dispuserp. 22
- Que leis, Fulgor? A lei, de agora em diante, nós é que fazemosp. 52
Ouvia de vez em quando o som das palavras, e notava a diferença. Porque as palavras que havia ouvido até então, e só então fiquei sabendo, não tinham nenhum som, não soavam; sentiam-se; mas sem som, como as que se ouve durante os sonhosp. 59
Não havia ar. Tive de sorver o mesmo ar que saía da minha boca, parando-o com as mãos antes que ele fosse embora. Sentia o ar indo e vindo, cada vez menos; até que se fez tão fino que se filtrou entre meus dedos para semprep. 69
- Você é um imbecil, Fulgor; mas não por culpa suap. 75
...mas é tão violento e vive tão depressa que às vezes acho que está apostando corrida com o tempo. Vai acabar perdendo, o senhor haverá de verp. 76
O Padre Rentería iria se lembrar muitos anos depois da noite em que a dureza de sua cama o manteve acordado e depois obrigou-o a sair. Foi a noite em que morreu Miguel Páramop. 80
...não se deve entregar nossos serviços a uns poucos, que nos darão um pouco a troco da nossa alma, e que com nossa alma nas mãos deles o que é que você poderá fazer para ser melhor que aqueles que são melhores do que você?p. 83
Depois veio aquela tontura, aquela confusão, o ir-se diluindo como em água espessa, e o corrupiar das luzes; a luz inteira do dia que se desmanchava fazendo-se cacos; e aquele sabor de sangue na línguap. 87
Tive pena porque ela não tornaria a ver o brincar do vento nos jasmins; que fechasse seus olhos para a luz dos dias. Mas por que iria chorar?p. 88
Nós nos rebelamos contra o governo e contra os senhores porque já estamos fartos de suportá-los. O governo porque é ordinário, e os senhores porque não passam de uns desavergonhados bandidos e uns ladrões sebentosp. 109
Vocês advogados têm essa vantagem; podem levar seu patrimônio a tudo que é lugar, pelo menos enquanto alguém não arrebentar suas fuçasp. 114