Samantha Harvey · Reino Unido · @dbaeditora
Este romance se passa a bordo de uma estação espacial, acompanhando a rotina de seis astronautas em órbita ao redor da Terra. O livro surgiu para mim de todos os lados: no Instagram, nas prateleiras de livrarias, e acabou furando a fila de outras leituras. As reflexões sobre tempo e espaço me pareceram instigantes: quando se muda radicalmente a perspectiva, o que realmente somos? Muitas certezas se dissolvem. A narrativa privilegia o aspecto humano, descrevendo tarefas diárias, pensamentos e até listas dos astronautas. Ainda assim, o ritmo me pareceu excessivamente lento. Do meio para o final, a leitura se tornou cansativa. No saldo, é uma obra que funciona como passatempo, mas não é memorável.
“De que lhe servem os bíceps, as panturrilhas, os ossos fortes das canelas; de que lhe serve a massa muscular? Pernas são coisa do passado”
p. 24 · uma de 14 frases marcadas neste livro
A Terra dá de ombros a cada rotaçãop. 106
O planeta é moldado pela pura e inacreditável força do querer humano, que foi capaz de mudar tudo, as florestas, os polos, os reservatórios, as geleiras, os rios, os mares, as montanhas, os litorais, os céus, um planeta traçado e delineado pelo quererp. 108
Chega o passado, o futuro, o passado, o futuro. É sempre agora, é nunca agorap. 110
Ou será que o tema é a arte em si (que é um conjunto de ilusões e truques e artifícios dentro da vida) ou a vida em si (que é um conjunto de ilusões e truques e artifícios dentro de uma consciência que está tentando compreender a vida por meio de percepções e arte)?
De que lhe servem os bíceps, as panturrilhas, os ossos fortes das canelas; de que lhe serve a massa muscular? Pernas são coisa do passadop. 24
Às vezes sentem falta de um vento, duro e gelado, uma chuva forte, folhas de outono, os dedos vermelhos, as pernas enlameadas, um cão curioso, um coelho assustado, o salto súbito de um cervo, uma poça num buraco do asfalto, os pés ensopados, um leve declive, outro corredor, um feixe de solp. 25
Há essa órbita gloriosa e, quando se está em órbita, somos imunes a todo impacto, nada pode nos abalarp. 27
Não é tanto que a Terra seja uma coisa e o clima outra, mas sim a mesma coisa. A Terra é suas correntes de ar, as correntes de ar são a Terra, assim como um rosto não está à parte da expressão que ele fazp. 85
...isso que é o mundo, um parquinho para os homens, um laboratório para os homens, nem arrisque competir, porque qualquer tentativa de competição vai culminar em sentimentos de desalento, inferioridade e derrota, por que participar de uma corrida impossível de ganhar, por que se envolver num caso perdidop. 91
Há algo de nítido, claro e proposital a respeito do planeta à noite, a trama fechada das suas tapeçarias urbanasp. 103
A mão da política é tão visível de lá da perspectiva deles que sequer conseguem entender como foi que ela escapou ao olhar antes dissop. 108
Dados, é o que eles são. Isso, mais do que tudo. Um meio e não um fimp. 135
O sentimento simultâneo de não querer estar aqui e sempre querer estar aqui, o coração escavado até ficar vazio de vontade, o que não é vazio algum, mas muito mais o conhecimento do quanto é possível preenchê-lop. 144
O tempo avança com seu niilismo de sempre, engolindo a todos nós, estarrecedor e insensível às nossas preferências pela vidap. 160