Michel Alcoforado · Brasil · @todavialivros
Dei uma folheada na edição física, mas li no kindle durante um voo (na classe econômica). Aliás, uma coisa de rico é dizer que não é rico, ainda que a gente queira parecer rico. @michelalcoforado é antropólogo "do luxo". Tem um perfil bem ativo no insta e boa verve no vídeo. Segundo as várias notícias de divulgação, ele se infiltrou por 15 anos nesse universo, escreveu uma tese de doutorado em 2016 (não achei no Lattes nem na UERJ) e agora lançou este livro sobre o que ele chama de comportamento social dos ricos do Brasil. Minha primeira pergunta foi: e por que largou essa cômoda posição? Deveria ter aproveitado mais uns 15 anos. A leitura foi divertida. No primeiro capítulo, o tom de deboche está um pouco acima, depois ele ajusta: o mero relato dos fatos é suficiente para o espanto. Tenho dúvidas se há elementos suficientes para dizer que alguns desses comportamentos são próprios dos ricos brasileiros. Em algumas passagens, ele cita pesquisas sobre os ricos franceses e pega exemplos de expressões idiomáticas, mas será suficiente? Meus destaques: ter secretária(s) para organizar a vida; a figura do ocupado desocupado; a invisibilização dos funcionários e a coisa de rico mais fundamental: manter o grupinho fechado.
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O próximo item das coisas de rico é a literatura. As marcas de luxo estão dando o caminho.
“Meu objetivo é compreender os códigos, a visão de mundo e os sentidos que aqueles que habitam o topo da pirâmide de renda dão à própria vida”
posição 225 · uma de 52 frases marcadas neste livro
Esse é o verdadeiro trabalho árduo das elites — o de manejarem fronteiras e convencerem a si mesmos, e aos outros, de quem são.posição 289
O dilema entre ser e não ser normal acompanha boa parte das famílias tradicionais brasileiras. Mesmo com excesso de dinheiro, casas, carros, empregados, amigos e conhecidos, eles se esforçam para mostrar aos outros (sejam eles ricos, não ricos ou empregados) que são tão humanos, tão normais, como qualquer outro mortal.posição 539
De modo geral, os ricos de berço no Brasil não leem e compram livros a metro, desconhecem os designers do mobiliário nacional e se agarram ao gosto dos arquitetos e decoradores do momento, frequentam restaurantes pela fama do chef, adquirem obras de arte como se fossem bolsas e participam dos conselhos dos museus para reforçar as redes de relações e vender aos “de fora” a ilusão de que são melhores.posição 1667
Mostram bolo de dinheiro, querem os melhores carros e acham que podem tudo. Brasileiro rico é assim, rico de verdade.posição 122
A grande batalha das elites brasileiras não é pela construção de um império, é pela conquista das coisas de rico.posição 176
Meu objetivo é compreender os códigos, a visão de mundo e os sentidos que aqueles que habitam o topo da pirâmide de renda dão à própria vidaposição 225
onde há gente vivendo junta, há a procura pela construção de bordas, limites e signos de distinção.posição 273
Para se sustentar, cobra-se das elites um gerenciamento cuidadoso dos excessos.posição 281
…os membros das classes altas precisam entender mais de cultura do que de dinheiro para se manter no topo da pirâmide. O dinheiro contribui — e muito — para a invenção da diferença, mas não é o suficiente. O que importa são os muros.posição 358
Assim, quando precisam operar a diferença, os quatrocentões brasileiros estão mais interessados em serem reconhecidos pelos seus do que pelos outros. E, por conta disso, se valem de objetos, assuntos e amizades só entendidos por quem nasceu e viveu nos mesmos círculos.posição 404
Afinal, é dando atenção ao menor, àquilo que é supérfluo e que passaria despercebido para a maioria das pessoas, que o ricaço se vende como especial, excepcional.posição 432
Ao contrário, vender a imagem de uma agenda cheia era um importante atalho na operação da diferença, fundamental na construção da distinção.posição 596
As razões para a falta de tempo se enquadram em três grandes grupos. São eles: os criadores de um novo “eu”, os ocupados desocupados e os vencedores bons vivants.posição 605
Os ocupados desocupados são mais comuns entre as elites tradicionais. É coisa de herdeiro.
Para não correrem o risco de serem confundidos com desocupados, apelam para um trabalho sem cara de trabalho. Isto é, sem vínculos trabalhistas, sem patrão, sem horário a cumprir, sem metas a bater, mas suficientemente crível para justificar a agenda cheia.posição 618
Em geral, quanto mais importante e endinheirado se é, mais seguranças e secretárias se tem.posição 632
com uma polidez refinada, na maior parte das vezes, arma temível da dominação de classeposição 700
Os ricos, sejam eles emergentes ou tradicionais, quando estão diante de outros ricos, passam o tempo contando sobre as maravilhas da própria vida, como se quisessem provar aos outros, e a si mesmos, que são o que dizem ser.posição 750
Os empregados são “aceitos” nas altas rodas em razão das suas habilidades profissionais.posição 816
Bons são aqueles que fazem os ricos se esquecerem do exército de funcionários em atividade na cozinha, do tempo perdido nas filas dos supermercadosposição 821
São muitas as estratégias usadas na invisibilização dos funcionários. Para se tornarem invisíveis, os empregados precisam ser tão parecidos entre si, mas tão parecidos, que acabam por desaparecer na paisagem. Daí a importância dos uniformes e do treinamento dos novatos.posição 823
os ricos me negaram entrevistas, mas me convidaram para coordenar grupos de leitura sobre os autores clássicos da disciplina. Os encontros aconteciam na sala de jantar das mansões, para no máximo quinze alunos dispostos a passear pelo mundo dos autores fundadores da antropologia.posição 900
O que lhes ouriçava era registrar cada segundo de sua vida luxuosa para compartilhá-la nas redes sociais.posição 925
Foi uma transformação sem volta, com impactos visíveis na maneira como me visto, nos meus desejos de consumo, na minha rotina de trabalho e nos meus vínculos de amizade.posição 964
…uma horda de herdeiros ansiosos para descobrir como a antropologia tinha virado coisa de rico.posição 970
Quem sabe mais, tem mais, conhece mais, deve ter a cortesia de ceder o protagonismo para o adversário ao longo da conversa.posição 1056
Ali, diante de mim, havia um homem rico, de mais de sessenta anos, deslocando boa parte da libido que lhe restava para as coisas de rico.posição 1117
A gestão das fronteiras, a operação da diferença, interessa mais do que quanto cada um tem.
os ricos brasileiros não se veem como parte do problema da desigualdade social. Como bem demostram os estudos da socióloga Elisa Reis, as elites brasileiras atribuem ao Estado o dever de combater a abissal desigualdade entre ricos e pobres.posição 1208
Aqui, a riqueza não é uma condição dada pelo dinheiro, mas o resultado de um trabalho árduo por ocupar um lugar no mundo dos ricos.posição 1217
O dinheiro desfez a cola entre as pessoas e as coisas.posição 1257
Entre os ricos brasileiros, as coisas de rico não servem para mostrar aos mais pobres o quanto se tem, mas sobretudo provar aos outros ricos o quão rico também se é. Eles são mais do que bens posicionais, uma vez que fazem mais do que comunicar status ou reputação. As coisas de rico são bens conectores, elas agem, incluem, criam pontes e catapultam os indivíduos para as rodas onde conquistarão o reconhecimento. Junto delas é possível ir e vir, ter acesso ao mundo dos ricos, experimentar novas subjetividades e participar de contextos sociais exclusivos sem dificuldades.posição 1290
Nem todas as coisas de rico valem uma fortuna. Há de todos os tipos. Esses objetos se definem mais pela capacidade imaginativa que despertam do que pelo preço.posição 1306
Há gerações, a família vive da administração do patrimônio herdado dos antepassados e dos investimentos em negócios parceiros.posição 1310
Parte da confiança na aptidão da família para os negócios vinha da habilidade com que manejavam a capacidade imaginativa das coisas de rico — exibidas meticulosamente nos jantares e encontros.posição 1311
Diferentemente da elite francesa, estudada por Pierre Bourdieu, os ricos brasileiros não investem em arte, não colecionam estantes abarrotadas de livro, não promovem saraus ou degustam iguarias em restaurantes de chefs de renome pela materialização de um gosto refinado tipicamente burguês. Eles o fazem por uso estratégico da capacidade imaginativa das coisas de rico, como se, na impossibilidade de falar das cifras, obrigassem todos a imaginá-las.posição 1320
…agenda, como de praxe, comes e bebes à vontade, música ao vivo e um palestrante disposto a discorrer sobre um tema de interesse.posição 1336
A eficácia das coisas de rico depende de como eles usam os atributos da distinção a seu favor.posição 1346
Um ricaço deve conhecer o poder das suas traquitanas e saber usá-las com eficácia, de modo que elas gritem para os “de dentro” a riqueza acumulada e, ao mesmo tempo, se mostrem como uma esfinge aos “de fora”.posição 1362
A maneira como as elites usam as coisas de rico desperta o interesse de outros grupos sociais. Só que, à medida que se popularizam, as coisas de rico perdem a força e morrem. São peças simbolicamente frágeis.posição 1376
No Brasil, quando o mundo dos ricos roça nos “de fora”, a vida é tomada por tensão. As elites protestam, param obras, congelam investimentos, estimulam ondas conservadoras, derrubam presidentes, dão golpes, batalham, enfim, para manter as coisas como sempre foram: cada peça no devido lugar.posição 1477
Ninguém faz negócios com gordos.posição 1545
Se antes a entrada de artistas e políticos, apesar da falta de berço, parecia tolerável, agora, pequenos empresários, pagodeiros, profissionais liberais, corretores de imóveis, donos de franquias de comida e cosméticos, parentes de jogadores de futebol, comerciantes e construtores de shoppings viraram pacientes e tomaram os corredores do lugar.posição 1592
As fronteiras simbólicas impostas pelos ricos tradicionais aos “de fora” são mais eficientes quando atores sociais são capazes de percebê-las sem qualquer sinalização clara. Muros, cancelas, seguranças, rituais de bola preta, placas ou pulseirinhas VIPs só devem ser usados em último caso, quando não há alternativa. O ideal é que cada um de nós perceba a própria estrangeirice sem que ninguém tenha de nos contar.posição 1646
O tempo das elites é um intervalo suficiente para inventar uma tradiçãoposição 1677
No Brasil, toda invenção de um novo eu passa, necessariamente, pela mudança e pela compra de uma nova casa, com mais espaço, mais conforto e mais regalias e parafernálias.posição 1761
O segredo é fazer os outros acreditarem que se é o que se é desde sempre.posição 1867
Era engraçado o quanto meus entrevistados se apressavam para enfatizar a maneira simples como levavam a vida.posição 2200
No Brasil, ser rico não é uma condição, é uma relação. Do ponto de vista nativo, ninguém é rico, mas está rico em relação a.posição 2234
Já os supérfluos, quando consumidos, cobram um esforço extra. Os ricos precisam gastar energia justificando, com argumentos, as razões dos seus desejos. O cálculo passa longe do valor ou da exclusividade do produto ou serviço desejados. Não tem a ver com preço.posição 2261
Quando fazemos uma avaliação dos nossos hábitos e da nossa rotina, tomamos como parâmetro o nosso padrão de vida. Sendo assim, vemos em qualquer hábito de consumo, não importa o custo, um item de primeira necessidade, se nos ajuda a performar um padrão e nos posiciona dentro do jogo social. Dado que, sem eles, não temos lugar social. Não importa se estamos nos referindo a um prato feito em uma padaria de rua ou ao menu degustação de um restaurante estrelado: aquilo que é fundamental à manutenção da performance de um determinado padrão é básico. O que foge, é supérfluo.posição 2284
Um rico diz que o outro é rico porque imagina que esse tem mais dinheiro do que aquele. O acusado nega, mas fica feliz por ser visto como tal.posição 2321