J. M. Coetzee · África do Sul · @editorabestseller
Eu sei que a capa não ajuda, mas garanto que o livro é excelente. O Círculo do Livro editou a única edição brasileira deste segundo livro do Coetzee, premiado nos anos 1970. Fui atrás dele na @estantevirtual, com a vontade de ler a obra completa desse grande autor. O enredo me atraiu às vésperas de uma viagem para a África do Sul: o relato de uma herdeira de uma fazenda de ovelhas no interior do país. A história é contada em passagens numeradas, algumas tão curtas quanto uma frase. É um fluxo de consciência dessa mulher solteira, que vive isolada na fazenda com o pai e poucos serviçais. Ela se ressente de sua condição: mulher, sozinha e vivendo num deserto. Não quer ser irrelevante ou levar uma vidinha comum. Pensa nos amores que poderia ter tido, e na relação difícil com o pai. O aspecto geográfico tem um peso importante. Mas sobretudo é uma reflexão sobre a solidão. A falta que nos faz um interlocutor. Ter alguém com quem falar, ouvir e ser ouvido. Se não tivermos o outro não conseguimos nos entender. Pena que é um lido pouco livro por aqui. Esse meu exemplar foi parar num sebo vindo de uma escola. A ficha de empréstimo está vazia.
“Não estou interessada em me tornar uma dessas pessoas que olham o espelho e nada veem, ou caminham ao sol sem projetar sombra. Depende de mim”
p. 34 · uma de 13 frases marcadas neste livro
Não estou interessada em me tornar uma dessas pessoas que olham o espelho e nada veem, ou caminham ao sol sem projetar sombra. Depende de mimp. 34
Certas coisas parecem ser irrecuperáveis. Talvez isso prove a realidade do passadop. 79
O sentimento de solidão é o anseio por um lugar. Esse lugar é o centro do mundo, o umbigo do universop. 175
Eu vivo, sofro, existo. Com malícia e traição, se necessário, luto para não ser mais uma esquecida da história. Sou uma solteirona com um diário trancado à chave, mas sou mais que isso. Sou uma consciência inquieta, porém mais que isso também. Quando todas as luzes se apagam, eu sorrio na escuridão. Meus dentes brilham, embora ninguém acreditep. 8
De todas as aventuras, o suicídio é a mais literária, mais até que o próprio assassinato. Com o fim da história, toda a poesia má que nos restou encontra alíviop. 21
Mas quem me dera ser meramente comum, ser uma herdeira comum e corrente, plácida, oca, ansiosa por não morrer solteira, disposta a se confiar de corpo e alma ao primeiro que passasse, até mesmo a um mascate ou um professor itinerante de latim, e parir-lhe seis filhas, e suportar-lhe insultos e pancadas com resignação cristã, e viver uma vida decente e obscura em vez de apoiar-me no cotovelo e mirar-me no espelho numa atmosfera de crescente melancolia e perdição, se é verdade o que me dizem meus ossosp. 33
...o homem não foi feito para viver sozinhop. 35
Em todo o país devem existir pacientes filhos de meia-idade à espera de que se afrouxem as mãos com que seus genitores seguram as chavesp. 53
Sou um espaço que chora não ter sido preenchido. Sei que se trata, até certo ponto, apenas de um modo de falar, um modo de me pensar; todavia, se não nos pudermos pensar em palavras, em imagens, de que modo haveremos de fazê-lo?p. 57
Verdadeiramente, os fatos têm o poder de ocorrer sem guardar proporções com nossas mais obscuras fantasiasp. 62
O mundo está repleto de gente que deseja fazer sua própria vida, porém, fora do deserto, a poucos se outorga liberdade tal. Aqui, no centro de parte alguma, posso me expandir ao infinito, assim como me posso encolher e minguar às dimensões de uma formigap. 68
Atrás de cada porta há um horrorp. 102
São necessárias gerações de vida nas cidades para apagar no coração a nostalgia do modo de ser do campop. 180