Oscar Nakasato · Brasil · @fosforoeditora
Peguei esse livro na mesa da livraria porque já tinha ouvido falar de Oscar Nakasato, autor paranaense premiado com o Jabuti. Uma folheada e vi que o tema era o mesmo que vem me perseguindo: o envelhecimento. Ojiichan é vovô em japonês. Mas estou com outras leituras na frente, e estava devolvendo o livro ao seu lugar quando vi uma citação de Grande Sertão: Veredas. Achei que era um sinal, e lá fui descobrir a história de Satoshi, um setentão que se aposenta como professor escolar. E agora, o que fazer da vida? A narrativa é bem ao estilo de romances japoneses: num ritmo leve, com delicadas descrições de eventos cotidianos. Kimiko, a esposa de Satoshi, tem Alzheimer. As semelhanças com Ainda Estou Aqui, minha leitura paralela, são perceptíveis: desde uma mesma frase ("Onde é aqui?") até o nervosismo de enfrentar sempre a pergunta se podia reconhecer pessoas conhecidas. Satoshi vai lutando para se reinventar, buscar uma forma de ainda ser relevante. Encontra pelo caminho Altair, Estela e Akemi, que também estão nessa jornada de buscar sentido na vida. Não estamos todos? Uma boa leitura.
“Kimiko não sabia que a vida lhe sequestrara o tempo e o espaço, as duas dimensões em que o ser humano vive, e os devolvia fracionados”
p. 120 · uma de 9 frases marcadas neste livro
Um homem está velho quando não consideram mais a sua opiniãop. 13
Havia uma cumplicidade, embora ela tivesse que ser reinstalada a cada momento. É o verdadeiro amor, a verdadeira amizade, pensou, um pouco enciumado. Mas não é assim o verdadeiro amor, uma reinvenção a cada abraço?p. 94
Disse que envelhecera, e que os anos lhe trouxeram algumas lições que a fizeram repensar sua atuação como professora. As certezas que tinha pareciam ser tão sólidas, mas o tempo se encarregou de colocá-las sob suspeitap. 37
Satoshi queria lhe perguntar se havia possibilidade de sua filha morrer, se ficaria com sequelas se sobrevivesse, mas ficou calado, preferindo o leve conforto da ignorânciap. 54
Satoshi não a desmentia. Aprendera que a verdade nem sempre liberta. A demência, que aliviara Kimiko da ausência do filho, agora a beneficiava com a ignorância da morte da filhap. 62
Quando juntava as mãos diante do santuário, era sincero o seu amor, embora fosse pouca a fép. 65
Satoshi ficava aflito ao vê-la titubeando e se desesperava por não poder ajudá-la. Que mulher era aquela?p. 78
A cada minuto o seu tempo recomeçava, e o minuto anterior desaparecia num buraco negro, de onde não seria resgatadop. 120
Kimiko não sabia que a vida lhe sequestrara o tempo e o espaço, as duas dimensões em que o ser humano vive, e os devolvia fracionadosp. 120