Chico Buarque · Brasil · @companhiadasletras
Quando Chico Buarque publica um livro com esse título imediatamente pensamos que são suas memórias. Sabemos que ele passou parte da infância na Itália. A foto na capa mostra Chico em uma bicicleta. Começamos a ler e parece que é isso mesmo: narrador em primeira pessoa, todos os fatos se encaixam na vida do Chico Buarque. Lá pelas tantas, fiquei intrigado com um acréscimo ao título na capa "ficção". Bambino a Roma: ficção. Por que ele quis dar esse destaque? O tema da autoficção não é novo. Roth, Coetzee, Piglia jogaram com isso. Annie Ernaux diz que não faz autoficção, e aí as coisas começam a ficar nebulosas entre o limite de uma coisa e outra. Acho que Chico vai por esse caminho. Meu palpite é que a maior parte das histórias são mesmo suas memórias, resultado de um "trabalho de escavação", como ele diz. Mas com esse "ficção" quis deixar no ar uma saída: pode ser ou pode não ser. Será que ele dançou mesmo com a atriz Alida Valli? O professor passou mesmo a mão na sua bunda? Enfim, talvez sejam memórias com muitos passarinhos do Chico (v. a crônica "O passarinho do Formiga, de Chico Buarque", do Mario Prata). No final das contas, tudo é ficção.
Depois que eu terminei, fiquei em dúvida se gostei ou não. Não é um livro inesquecível. Mas é uma leitura agradável, passear por Roma junto com esse "brasiliano", que já revela seus gostos por futebol, música, e por arquitetura e Paris. Talvez eu tenha gostado mais da parte final, do adulto indo resgatar sua história, fazendo a escavação in loco. Mais uma obra que enveredou por esse tema do envelhecimento, que tem me perseguido nesses tempos.
“O coração disparado, porém, atribuo à visão do pôr do sol, refletido nos muros cor de ocre e no rosto das adolescentes que lembram a irmã que perdi”
p. 144 · uma de 11 frases marcadas neste livro
Muito se tem escrito a respeito de artistas geniais que em sua vida pessoal se revelam uns crápulas. Eu também sei distinguir o criador da criatura e guardo uma admiração inata por obras de autores com quem jamais me sentariap. 58
Mas também é possível que esse mal-estar nunca tenha existido, só existe agora que me lembro delep. 112
(....) eu não conseguiria descrever honestamente o que se passava à minha volta no dia a dia, pois mesmo as memórias mais recentes seriam retocadas à medida que eram escritas. Achei melhor largar mão da ideia de um diário e deixar que o esquecimento fizesse o seu trabalho. No futuro a imaginação cobriria as lacunas da memória e os acontecimentos reais se revezariam com o que poderia ter acontecidop. 84
Sem contar que havia vida além dos muros da escola, havia as fontanas da cidade, havia vespas e lambretas, havia o cine Rex, havia Alida Valli, havia Carlo, havia Hi-Lili, Hi-Lo, havia Sandrene, havia a carranca de Pio XII, havia a signorina Grazia, havia Graziellap. 12
Então comecei a sair sozinho, notando que muitos meninos mais estranhos do que eu passeavam despercebidos por aí, desde que não acompanhados por uma família estranhap. 18
Aquela noite experimentei pela primeira vez o que é ser um cornudo, o mais doloroso dos aprendizados, mas eu não tinha tempo a perder com pirralhas. Eu tinha pressa de crescer e ser adulto e namorar mil e uma mulheres, até conhecer uma moça séria para esposar e ser traído, uma mulher completa como por exemplo signorina Grazia, professora de italiano do meu paip. 48
Vai ver que no fundo papa buono tinha lá seus pequenos vícios, porque ninguém pode ser inocente por completo o tempo inteiro. Eu, por exemplo, apesar da formação cristã, sou de má índole, vivo tendo ideias perversas, não raro desejo o mal ao próximo, daí que reconheci intimamente a alma tortuosa de Pio XIIp. 55
Naquela parte de Paris havia mais estrangeiros do que em Roma, havia negros, havia asiáticos, usavam-se trajes de todo tipo, falavam-se línguas esdrúxulas e cintilavam luzes ao nosso redor; eu começava a amar a cidade na véspera da partidap. 117
Peço perdão, pois admiro e respeito quem tem a leitura como ofíciop. 140
O coração disparado, porém, atribuo à visão do pôr do sol, refletido nos muros cor de ocre e no rosto das adolescentes que lembram a irmã que perdip. 144
Se não tivesse mais o que fazer, no futuro quem sabe ela ditaria suas mais recônditas memórias do Senegal para o escritor atormentadop. 150