José Henrique Bortoluci · Brasil · @fosforoeditora
Que livraço! Fiquei profundamente emocionado pela forma como @ze_bortoluci narra as aventuras de seu pai. Em primeira pessoa, ele compartilha suas angústias com o leitor. Essa relação pai/filho é profundamente tocante, em várias passagens eu fiquei com um nó na garganta. Talvez eu esteja passando por momentos parecidos, tanto como filho quanto como pai, e por isso me impactou tanto. Ele escreve se envelhece gradualmente, mas também de repente. Essa constatação da finitude é chocante. O autor alerta que que não queria fazer uma história social dos caminhoneiros brasileiros, mas acho que isso é inevitável. No miolo do livro, há uma análise social e política do país. Confesso que essa parte me pegou menos. Eu percebi que grifei mais as páginas iniciais e as finais, que são as que concentram mais as relações pessoais. Lembra o estilo da Annie Ernaux, embora aqui eu tenha sentido mais destaque ao pai do que ao narrador. Recomendo demais, o melhor do ano.
“Falar é trazer os mortos para dançar na festa dos vivos, é reviver o trajeto de gerações passadas e de nossa história de encontros e de perdas”
p. 28 · uma de 14 frases marcadas neste livro
Porque se eu tivesse gravado tudo que eu fiz, você ia sentir o maior orgulho do seu pai. O que é meu é tudo aquilo que eu vi e gravei na memóriap. 14
A sua ausência parece deixá-la mais viva - nesse silêncio, todos sabemos que é de câncer que se tratap. 18
Nossos corpos e nossas vozes anunciam constantemente a casa dos nossos pais e formas de voltar a ela - ou de tentar fugirp. 27
Passamos a vida construindo nosso próprio vocabulário, compondo um ritmo de fala, reinventando expressões que ouvimos em um tempo remotop. 28
Só podemos falar nossa própria língua quando acertamos as contas com a língua dos nossos paisp. 29
Nós chegamo em casa, você não parava de chorar ali no sofá, você lembra? E o pai falou: eu já joguei o cigarro fora e eu quero que o diabo me dê o pior lugar do inferno se um dia eu por outro cigarro na bocap. 45
É possível de fato retornar à casa depois de travar batalhas, ver seres mágicos, enfrentar a solidão profunda, conhecer o mundo?p. 46
O que é meu, só eu posso enfrentarp. 133
Palavras são estradas. É com elas que conectamos os pontos entre o presente e um passado que não podemos mais acessarp. 10
O câncer também tem algo de transbordamento: ele é matéria deslocada, em frenética expansãop. 17
Envelhece-se gradualmente (...). Também se envelhece de repentep. 19
Falar é trazer os mortos para dançar na festa dos vivos, é reviver o trajeto de gerações passadas e de nossa história de encontros e de perdasp. 28
...mas como pai receoso de também não deixar nada, de um dia terminar como mais uma engrenagem de um ciclo de reprodução da classe trabalhadora em um país em que a desigualdade é uma das marcas distintivas, nosso cruel amálgama coletivop. 39
Igreja, câmara e puteiros formavam uma espécie de Santíssima Trindade política do interior do país: catolicismo, masculinidade patriarcal e mandonismo político localp. 41