Yasunari Kawabata · Japão · @estliberdade
É um dos clássicos da literatura japonesa. Do Yasunari Kawabata, gostei muito de A casa das belas adormecidas e Kyoto. O país das neves, considerado sua obra-prima, não me pegou. Talvez o meu momento não tenha ajudado, a leitura não engrenou e foi difícil recuperar o interesse. É extremamente bem escrito, mas a leitura não me deu prazer.
O romance acompanha a relação entre Shimamura e Komako. Ele, um homem rico de Tóquio, casado, viaja repetidamente a uma região isolada no norte do Japão e ali conhece a gueixa Komako. A cada visita, a relação se adensa, num jogo sutil que expõe limites sociais e afetivos. Tudo isso tendo como pano de fundo a paisagem rural de Niigata, com seus onsens, a neve constante e as tradições locais.
Um detalhe lateral, mas que me chamou atenção, foi descobrir sobre o chijimi, tecido japonês usado em quimonos de verão. A descrição do trabalho das mulheres que o produzem é precisa e elegante, e traduz bem essa obsessão japonesa pela excelência no ofício.
“Antes, tudo se resolvia com facilidade, mas o mundo começou a ficar cada vez mais individualista, é cada um por si... Por aqui muita coisa mudou”
p. 86 · uma de 14 frases marcadas neste livro
Mesmo depois de deixar a casa, Shimamura continuava sentido o olhar de Yoko ardendo diante dele. Era um olhar frio como uma chama longínqua, pois ele se lembrava de que, enquanto olhava o reflexo do rosto de Yoko no vidro da janela do trem, as chamas das montanhas e das matas passavam pelo outro lado do rosto dela e que, quando uma daquelas chamas sobrepôs-se à sua pupila formando uma claridade flamejante, Shimamura tremeu diante de sua beleza inexprimívelp. 53
Quando não se bebe, nada é realmente interessante. Acaba-se esquecendo de tudop. 55
O tecido usado para vestir pode ser uma peça de pouca durabilidade dentre os artigos produzidos artesanalmente, mas, bem cuidado, um chijimi pode durar mais de cinquenta anos sem ao menos desbotar; em compensação, as relações humanas não têm longevidade alguma se comparadas à do chijimip. 136
Sendo do tipo que não se satisfazia se não conhecesse tudo a respeito de algo, leu os registros antigos e visitou os grãos-mestresp. 26
Era uma paisagem noturna severa, como se o som da neve congelando por toda a superfície soasse das profundezas da terrap. 42
Em vez de surpreso, ele se sentiu arrebatado. Fora tocado pela devoção, fora lavado pelo remorso. Estava simplesmente impotente e sem outro recurso senão o de se entregar, ficando à mercê das forças de Komakop. 65
Assim que o trem se moveu, o vidro da sala de espera clareou, e o rosto de Komako pairou brilhante em meio a essa luz, vindo a se apagar num instante. Ele se mostrava igual ao brilho daquele momento no espelho da neve matutina, as maçãs do rosto bem vermelhas. Para Shimamura, essa era a cor que ultrapassava o limite da realidadep. 77
Antes, tudo se resolvia com facilidade, mas o mundo começou a ficar cada vez mais individualista, é cada um por si... Por aqui muita coisa mudoup. 86
Às vezes, o forro não está bem esticado e o lençol fica enrugado. Quando vejo isso, fico irritada. Mas acho que é indelicadeza fazer a cama de novo, pois sou grata à gentileza delesp. 91
Shimamura pensou que em menos de três anos viera três vezes, e em cada uma delas a situação de Komako estava diferentep. 93
Se tivesse pelos duros e espessos como os dos ursos, com certeza o ser humano teria os sentidos bem diferentes. Os homens amam a pele fina e lisa uns dos outrosp. 98
Embora sempre pensasse em Komako quando estava longe, ao se aproximar dela, talvez por ficar tranquilo ou por agora ter familiaridade demais com o seu corpo, a falta que sentia de um corpo de mulher e a atração pela montanha pareciam-lhe um mesmo sonhop. 99
Zombar de si mesmo, pelo próprio trabalho, devia ser um prazer inconsequentep. 116
As artesãs anônimas que fizeram tal sacrifício já eram falecidas havia muito tempo e só restaram os esplêndidos chijimi feitos por elas. Acabaram como artigo de luxo de pessoas do gênero de Shimamura, a quem proporcionam uma sensação de frescor de verãop. 139