Jacques Rancière · França · @relicarioedicoes
Este ensaio é a transcrição de uma palestra de Jacques Rancière sobre autores brasileiros. Ele parte de considerações sobre a ficção e o romance, e utiliza vários exemplos da obra de Guimarães Rosa para desenvolver suas ideias. O texto é muito técnico. Eu tive certa dificuldade de compreender a discussão técnica de teoria literária. Se entendi direito, o que Rancière defende é que o elemento chave da ficção moderna é o tempo: "A verdadeira linha decisiva em que a ficção se constrói e ganha sentido é a que separa o 'nada está acontecendo' do 'está acontecendo alguma coisa'. A ficção moderna é a ficção do momento e do ato às bordas do nada (...). Ora, podemos dizer que essa é a fronteira entre o nada e o acontecimento que fica no centro de todas as narrativas de Rosa". Ou nas palavras do próprio Guimarães Rosa (no conto "A terceira margem do rio", de Primeiras estórias), reproduzidas no ensaio: "Aquilo que não havia, acontecia".
“A festa ou a ficção é a vida reinventada, diferente da vida ordinária, mas que, no entanto, não cessa de circundá-la”
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A festa ou a ficção é a vida reinventada, diferente da vida ordinária, mas que, no entanto, não cessa de circundá-lap. 31
Em outras palavras, parem de acreditar 'no que existe', no que se reproduz incessantemente, semelhante a si mesmo; entrem no espaço da ficção. Esse espaço da ficção é a verdadeira vidap. 37
O que a ficção moderna torna autônomo não é a arte ou a linguagem, é o instante como meio puro sem começo nem fimp. 41
João Guimarães Rosa é talvez o escritor que mostrou de maneira mais forte que a revolução literária moderna não é absolutamente o isolamento da linguagem tornada autônoma em seu mundo próprio. Ela é, pelo contrário, a manifestação de uma solidariedade radical entre as invenções da literatura e aquelas que cada vida é capaz de criarp. 53
Todas as histórias dessa antologia podem se resumir à pequena história absurda que ele conta o primeiro prefácio; a história desse vendedor de rua a quem gritam: 'Manuel, corre para Niterói. Tua mulher enlouqueceu, tua casa está pegando fogo'. O vendedor larga seu carro e corre para pegar o barco que leva para o outro lado da baía do rio antes de se dar conta, no momento de desembarcar, que ele não se chama Manuel, não mora em Niterói, não tem mulher nem casap. 45
A ficção não é o lugar dos sonhos onde se vai descansar dos aborrecimentos da vida ordinária. Ela é a negação radical dessa vida ordinária, é a verdadeira vida, aquela a que é preciso se dedicar inteiramentep. 43
Ser um escritor do sertão não é falar a língua que se utiliza todos os dias no sertão. É, pelo contrário, trabalhar a língua ordinária para afastá-la dela mesma, para que cada palavra seja uma nova palavra, uma palavra semelhante ao que ela seria se fosse usada pela primeira vez, o mais proximamente, portanto, da capacidade pela qual toda vida se inventa ao dizerp. 20