Daniele Giglioli · Itália · @editora.ayine
A vítima é poderosa. Adotar o discurso da vítima pode ser uma estratégia eficiente para evitar crítica e responsabilidade. Vira uma espécie de escudo. Este ensaio do professor italiano Daniel Giglioli se propõe a discutir esse tema, muito atual em tempos de cancelamentos. Ele faz uma ressalva de que a crítica dele não se dirige às vítimas reais, mas o que ele chama de mitologia vitimária. O início me pareceu melhor do que a parte final do livro. Parece que ele vai perdendo fôlego, ainda que demonstre muita erudição, fazendo conexão com muitos autores e obras. Não concordo integralmente com as posições do autor, mas admiro a coragem de tocar num ponto sensível. Foi uma leitura muito enriquecedora.
“Sustenta Haussner: Todo processo implica uma vontade de ressarcimento, um desejo de exemplaridade. Chama a atenção, narra uma história, exprime uma moral”
p. 67 · uma de 20 frases marcadas neste livro
A vítima é o herói de nosso tempo. Ser vítima dá prestígio, exige atenção, promete e promove reconhecimento, ativa um potente gerador de identidade, direito, autoestima. Imuniza contra qualquer crítica, garante inocência para além de qualquer dúvida razoávelp. 11
Comparada à história, a memória é subjetiva, íntima, vivida, não negociável (...)p. 18
O humano se define mediante o que não podep. 57
Vence aquele que obtém o discurso mais eficaz, ou seja, o discurso mais chantageadorp. 63
A única alternativa é inverter o jogo, não se deixar chantagear, submeter a crítica aos próprios termos da discussãop. 102
A mitologia da vítima tira força aos mais fracos, e a acumula nas mãos erradas. Criticá-la significa redistribuir as cartasp. 105
O rancor vitimário dos vencedores é um dos fenômenos mais singulares de nosso tempop. 106
Uma vítima não tem débitos, tem somente créditos. Condição invejável, paraíso paradoxal, narcótico que permite não ver as consequências sinistras das irresponsáveis injunções ao prazer ínsitas ao Discurso do Capitalistap. 118
A mitologia vitimária é uma subalternidade que perpetua o domíniop. 135
Uma moral que pede para se identificar (reconhecer-se, comprazer-se) não no que se faz, mas no que não se faz, declarando-se não mais forte, mas mais fraca do que quem erra, e assim potencialmente à sua mercêp. 29
No populismo, não há amor sem inimigo, e ninguém individua um inimigo sem sentir-se vítima real ou potencialp. 34
Mas não acontece o mesmo com René Girard? Para ele, tudo começa com o desejo, que não deve ser confundido com a necessidade. Há desejo todas as vezes que se quer algo apenas porque outro também o querp. 49
Sustenta Haussner: Todo processo implica uma vontade de ressarcimento, um desejo de exemplaridade. Chama a atenção, narra uma história, exprime uma moralp. 67
Poder, dizia Shakespeare, é possibilidade de fazer o malp. 69
(...) o conflito é um processo que nos constitui, nos estrutura, nos leva a redefinir continuamente nossas posiçõesp. 70
Não explica a psicanálise que aquilo de que mais nos orgulhamos, aquilo que acreditamos ser mais nosso, mais certo, mais autêntico nosso Eu, é na verdade o fruto de um espelhamento, de uma projeção (não da rivalidade e da aversão: a fase do espelho, quem é aquele ali que se comporta como eu?) - é, em uma palavra, o que de mais imaginário existe?p. 109
Todos concordam em afirmar que identidade, pessoal e coletiva, é a narração que cada um consegue fazer de si. A identidade é narrativa. Homo sapiens = homo narrans. Uma pessoa é sua história, uma nação também. E da mesma forma um produto, uma empresa, uma campanha eleitoralp. 119
Do marketing à comunicação política, da gestão dos recursos humanos às estratégias de empresa, das formações dos líderes às motivações dos clientes, funcionários e eleitores, não existe setor da sociedade que prescinda da necessidade de ser imaginado, organizado e vivido como uma história que estabelece com clareza os papeis e os valores e prescreve objetivos e desejos de quem deve recitá-lap. 120
A verdade se interpreta, a mentira se constatap. 124
Política e conflito são sinônimos. Política, explicou Jacques Rancière, é quando têm-se ao menos duas ideias sobre como repartir-se o mundo, por exemplo. Quando se tem apenas uma é, ao contrário, polícia, no sentido do século XVIII de policy, police, ordinária administração, funcionamento bem lubrificado do status quop. 134