Luiz Antonio Simas · Brasil · @morula_editorial
A propósito de contar a história do Maracanã, este livro fala sobre o Brasil e o Rio de Janeiro. Mais do que isso, sobre o brasileiro e o carioca. É muito bem escrito e interessa mesmo aos que não são apaixonados por futebol. Gostei especialmente dos capítulos em que ele conta as histórias dos torcedores dos principais clubes do Rio e narra as memórias afetivas das pessoas com o estádio. Algumas curiosidades que descobri na leitura: a Áustria jogou um jogo da Copa de 1934 com o uniforme do Napoli; Oscar Niemeyer fez um projeto para o Maracanã; durante 15 anos, o estádio foi conhecido como Municipal; Maraca é o nome de um papagaio; havia um hábito de soltar balões antes do jogos. O livro fala do jogo de 1950, e observa que a tragédia foi se formando depois. Tudo é narrativa, afinal. E essa é uma literatura de altíssima qualidade.
“O Maracanã, monumento da grandeza possível da nação brasileira, nascia como um signo possível do seu inverso: e se o país estivesse fadado ao fracasso?”
p. 94 · uma de 9 frases marcadas neste livro
No Brasil, o futebol ocupou um lugar de centralidade na produção da identidade nacional e na invenção daquilo que caracterizaria um projetado 'ser brasileiro'p. 16
A quantidade de comissões envolvidas na construção do Maracanã beira o inacreditávelp. 57
Começava a ser gestado ali o mito de origem do Maracanã como uma espécie de templo de um Brasil que se afirmava como um país cordial e realizador; a prova em concreto do mito da democracia racial brasileira e da mestiçagem como a solução para a questão da identidade nacionalp. 82
As primeiras reações da imprensa ressaltaram o bom jogo dos uruguaios, lamentando a derrota brasileira. Aos poucos, porém, o imaginário da tragédia foi sendo alimentadop. 93
O Maracanã, monumento da grandeza possível da nação brasileira, nascia como um signo possível do seu inverso: e se o país estivesse fadado ao fracasso?p. 94
Diante da imensidão do estádio, o torcedor reelabora as maneiras de interagir com o que está acontecendo no gramadop. 101
Na perspectiva de compreender as dimensões materiais e simbólicas do lugar a partir da sua apropriação e do seu uso, por este conjunto de modos de sentir e viver o estádio, misturando performances coletivas e anseios individuais, podemos lançar a ideia de que conceitualmente o Maracanã é um grande terreiro que a cidade do Rio de Janeiro inventoup. 107
Eles, os jogos e os personagens, acabam também contando a história do estádio e dos modos como a cidade o praticou. É a dança dos deuses, afinal, que faz o terreirop. 109
Nossas maneiras de jogar bola e assistir aos jogos dizem muito sobre as contradições, violências, alegrias, tragédias, festas e dores que nos constituíram como povop. 187