Janet Malcolm · EUA · @relumedumará, ediouroeducacao
Foi Freud quem disse: governar, educar e psicanalisar são atividades impossíveis. Esse livro é uma reportagem sobre a história da psicanálise e dos psicanalistas, mas não perde de vista o maior desafio, que é como lidar com nossa mente. É um livro de raro talento: com pesquisa do conhecimento científico, alternando entrevista com explicações e impressões da autora. É literatura da melhor qualidade. De certa forma, Janet Malcolm colocou seu entrevistado principal (pseudônimo Aaron Green) no divã. E extraiu dele avaliações interessantes sobre a operação da psicanálise, o comportamento dos psicanalistas e suas angústias.
“É curioso que uma profissão que se orienta tanto para o amadurecimento progressivo conduza sua formação como uma experiência infantilizante”
p. 72 · uma de 16 frases marcadas neste livro
Os analistas aprendem a fazer análise sendo analisados, eles próprios, o que é um método muito singular de formação profissional. É como se um cirurgião aprendesse a praticar cirurgia sendo operadop. 68
É curioso que uma profissão que se orienta tanto para o amadurecimento progressivo conduza sua formação como uma experiência infantilizantep. 72
A maneira correta é simplesmente assinalar ao paciente a forma como ele se impede de pensar em certas coisas e sentir certas coisas, de modo que ele passe a observar a si mesmo e a fuga não funciona de maneira tão automática. É só isso. Esse é o bisturi do analistap. 82
A análise não é intelectual. Não é moral. Não é educacional. É uma operaçãop. 121
Vivemos de acordo com a compulsão à repetição, e tudo que a análise pode conseguir é nos livrar dela. A análise deixa o paciente com maior liberdade de escolha do que tinha antes, mas, quão maior? A dimensão é esta: em vez de seguir diretamente o meridiano, ele irá uns cinco, dez ou, quem sabe, quinze graus para a esquerda ou a direita, se você empurrar com muita firmeza, não mais do que issop. 121
...o efeito profundo que as pessoas podem surtir umas nas outras, a diferença decisiva que um encontro entre duas pessoas pode determinar no curso de suas vidasp. 160
Será que o que entendemos por apaixonar-se não é uma espécie de doença e loucura, uma ilusão, um cegar-se para o que a pessoa amada realmente é, um estado proveniente de origens infantis?p. 16
Finalmente, deixando de pressionar os pacientes e lhes permitindo dizer o que bem entendessem, Freud chegou ao método psicanalítico (ou tropeçou nele) que se manteve inalterado até nossos diasp. 23
A diferença entre os neuróticos e as pessoas normais é apenas uma questão de grau, diz Freud na última de suas conferências de Clarkp. 28
Desde que Freud instituiu a situação analítica tal como a conhecemos, os psicanalistas vêm batalhando com sua diferença radical de qualquer outra relação humana (e, em alguns casos, fugindo dela), sua renúncia deliberada às gentilezas e conveniências do convívio humano comum, e sua espantosa anormalidade, espírito de contradição e tensãop. 42
As fontes da motivação e do prazer são desejos infantisp. 76
...é o paciente que controla o que está acontecendo, enquanto o analista é uma figura insignificante e fracap. 82
O trabalho do analista não é oferecer solidariedade ao paciente: é levá-lo ao insightp. 84
Todas as análises terminam malp. 112
...quanto menos o analista tentar ajudar o paciente, maior será a probabilidade de que o façap. 153
Em outras palavras, é a própria análise, e não o analista, que promove a regressão do pacientep. 157